A teoria clássica foi uma forma pioneira de esquematizar os géneros literários e serviu de referência para todas as classificações posteriores: obteve imenso sucesso nas estéticas renascentistas e neoclássicas, mas também sofreu alterações ao longo dos tempos, vindo a transformar-se na teoria dos géneros tal como a conhecemos hoje. Quando se impôs durante o Renascimento era normativa e prescritiva. Acreditava que cada género era diferente dos outros e que estes se deviam manter separados, numa “doutrina de pureza”. Apelava a um enredo que expressasse uma única emoção (terror ou riso), e mantinha uma diferenciação social: a épica e a tragédia versavam problemas da corte; a comédia ocupava-se da classe média; enquanto que a sátira e a farsa se referiam ao povo. Mais tarde, durante os séculos XVII e XVIII do neoclássico, uma mistura de racionalismo e autoritarismo conservou e adaptou as espécies literárias de origem antiga, especialmente as poéticas. Mas a teoria neoclássica não explicava a doutrina das espécies ou em que se baseava a sua diferenciação: ela não considerava a necessidade de um critério para tal, e apenas atendeu a certos tópicos, tais como pureza, hierarquia, duração da espécie, etc. A partir do Romantismo impôs-se uma concepção inovadora e mais livre da criação literária. E, já no século XIX da época moderna, assistiu-se a uma forte aceleração na evolução dos géneros, devido sobretudo à forma como o público passou a consumir a obra literária, quando o livro se tornou um bem cultural cada vez mais acessível, devido ao incremento industrial na sua produção e distribuição.
Existem claras diferenças entre a teoria clássica dos géneros e a moderna teoria. Hoje em dia, considera-se que uma classificação dos textos literários depende das distintas perspectivas teóricas, pelo que não existe uma classificação única e rígida dos modos, géneros ou subgéneros literários. O género pode ser concebido como um agrupamento de obras literárias, baseado tanto na sua forma exterior (metro e estruturas especificas) como na forma interior (finalidade; sujeito e publico). Ele, o género literário, representa uma soma de processos técnicos existentes, que o escritor pode utilizar e que o leitor já compreende. Neste sentido, a teoria moderna é claramente descritiva, não limitando o numero de géneros nem prescrevendo regras aos autores. Ela admite a mistura entre espécies tradicionais e, em lugar de sublinhar a distinção entre diferentes espécies, interessa-se em descobrir qual o seu denominador comum, quais os seus processos e objectivos literários.
“O Conhecimento da Literatura”, de REIS, Carlos – Editora Almedina, Coimbra, 2015
“Teoria e Metodologia Literárias”, de SILVA, Aguiar – Universidade Aberta, Lisboa, 2004
