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Tag: gastronomia

  • A Verdade nas Mãos: O que o Gás não Queima

    No palco do show cooking, perante o burburinho do hotel, a sardinha chega-me às mãos como por sorteio. Algumas ainda brilham, guardando a memória do mar, mas outras aparecem baças, olhos opacos e de pele despida pelo gelo industrial. Ali, enfrentando o mundo, a minha mente foge por instinto para as traineiras de cerco e para o carvão dos assadores de rua. Hoje o fogo é a gás, mas o respeito pelo peixe é o mesmo de quando eu era apenas mais um naquela rua.

    Trabalho sem rede. Faltando a grelha, as minhas mãos ficam expostas ao lume mais tempo do que os dedos aguentam. O sal de sempre ataca as minhas feridas quando a gordura pinga e as pequenas labaredas levantam. Sinto o suor escorregar, teimando em descer sobre os olhos. Nesse momento o ruído das perguntas dos clientes desaparece. O desconforto faz o ego desistir; não há espaço para parecer, apenas ser (cozinheiro). Guio-me pelo seguinte sinal: o olho da sardinha torna-se uma pequena esfera branca. Será que a carne, por dentro, ainda está húmida?

    Cozinhar assim é um risco. Entrego o prato sem poder provar, indefeso perante quem sirvo. Hoje, um cliente que sabia distinguir – o mar do gelo – escolheu a sua sardinha e voltou para repetir. Naquele gesto, reconhecimento. Não procurava a perfeição, procurava a verdade. No final, percebi que mesmo stressado e com as mãos a arder, a minha história transpareceu. O que lhes dei não foi apenas peixe; foi a presença de quem já cercou o mar de prata e sabe que, ao fogo, a mão nunca mente.

  • Gastronomia do Abjecto

    Título: A Estética da Crueza e a Gastronomia do Abjecto: Um Manifesto Interdisciplinar
    Autor: Gemini (AI Collaborator)


    Palavras-Chave: Teatro da Crueldade, Butoh, Abjecção, Francis Bacon, Gastronomia Performativa.

    Resumo: Este ensaio estabelece um nexo ontológico entre as práticas performativas do século XX — especificamente o Teatro de Artaud e Brecht e a dança Butoh — e as artes visuais de Francis Bacon, culminando na sua aplicação prática na arte contemporânea da mesa. Propõe-se que a gastronomia, ao apropriar-se dos conceitos de Grotesco e Abjecção, pode transcender a esfera do consumo para se tornar uma linguagem de resistência estética e provocação filosófica.



    1. O Corpo Desarticulado: De Artaud ao Butoh


    A premissa fundamental desta investigação reside na negação do corpo idealizado. Antonin Artaud, no seu Teatro da Crueldade, propõe uma linguagem “antes das palavras”, onde o corpo é um campo de forças vibráteis. Esta visão encontra eco no Butoh de Tatsumi Hijikata e Kazuo Ohno, que surge do trauma pós-nuclear japonês como a “dança da lama”, expondo o corpo deformado, lento e vulnerável. Ponto de Contacto: A recusa da técnica decorativa em favor da verdade visceral.

    2. A Carne de Bacon e a Sátira de Brecht


    Se Bacon isola a figura humana na sua agonia de “carne viva”, aproximando o homem do animal de talho, Bertolt Brecht oferece a ferramenta intelectual para processar este horror: o Verfremdungseffekt (efeito de distanciamento). A música dos The Tiger Lillies opera nesta intersecção, utilizando o grotesco e a estética de cabaret para distanciar o público da tragédia através do riso nervoso e da crueza lírica.

    3. A Gastronomia como Espaço de Abjecção


    Utilizando a teoria de Julia Kristeva, a abjecção na mesa é o momento em que o alimento deixa de ser “produto” e volta a ser “corpo”.
    Aplicação: O uso de texturas que evocam fluidos corporais, órgãos e tecidos desconstruídos obriga o comensal a uma “dissecação” em vez de uma “refeição”. O prato torna-se uma memento mori comestível.

    4. Conclusão: A Mesa como Manifesto


    A “Nova Arte da Mesa” aqui proposta não procura o prazer hedonista, mas o rigor da percepção. Ao fundir a performance do Butoh com a visualidade de Bacon e a filosofia de Artaud, o Chef-Artista transforma o restaurante num laboratório de fenomenologia, onde o ato de comer é a consumação final de uma obra de arte que é, por natureza, efémera e violenta.




    Referências Bibliográficas:
    – Artaud, A. (1938). Le Théâtre et son Double. Gallimard. (Fundação do Teatro da Crueldade).
    – Bacon, F. (Entrevistas com David Sylvester). The Brutality of Fact. (Sobre a estética da deformação e da carne).
    – Bakhtin, M. (1965). L’Œuvre de François Rabelais et la culture populaire au Moyen Âge et sous la Renaissance. (Teoria sobre o Grotesco e o Realismo Grotesco).
    – Brecht, B. (1964). Brecht on Theatre: The Development of an Aesthetic. Hill and Wang.
    – Kristeva, J. (1980). Pouvoirs de l’horreur. Essai sur l’abjection. Seuil. (Definição de Abjecto como ruptura de fronteiras).
    – Uno, K. (2018). Hijikata Tatsumi and Butoh: Resilience of the Body. (Análise da estética do corpo no Butoh).