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reflexões, ficção e outras narrativas

Tag: auto-etnografia

  • A máscara

    A máscara não é tecido mas uma liga de dever e silêncio moldada no rosto. Quando o estojo de facas se abre, a angústia e a devoção respiram no mesmo fôlego: o aperto no peito que se entrega ao fogo, prece seca que sustenta.
    Exausta, a face sob a máscara subsiste. Tateia entre o estrépito e o vazio, buscando um sentido que escape à repetição. Mas o perigo é mudo: de tanto uso, torna-se máscara. Para o bem e para o mal, somos o que repetimos; o ferro torna-se carne.

  • A Verdade nas Mãos: O que o Gás não Queima

    No palco do show cooking, perante o burburinho do hotel, a sardinha chega-me às mãos como por sorteio. Algumas ainda brilham, guardando a memória do mar, mas outras aparecem baças, olhos opacos e de pele despida pelo gelo industrial. Ali, enfrentando o mundo, a minha mente foge por instinto para as traineiras de cerco e para o carvão dos assadores de rua. Hoje o fogo é a gás, mas o respeito pelo peixe é o mesmo de quando eu era apenas mais um naquela rua.

    Trabalho sem rede. Faltando a grelha, as minhas mãos ficam expostas ao lume mais tempo do que os dedos aguentam. O sal de sempre ataca as minhas feridas quando a gordura pinga e as pequenas labaredas levantam. Sinto o suor escorregar, teimando em descer sobre os olhos. Nesse momento o ruído das perguntas dos clientes desaparece. O desconforto faz o ego desistir; não há espaço para parecer, apenas ser (cozinheiro). Guio-me pelo seguinte sinal: o olho da sardinha torna-se uma pequena esfera branca. Será que a carne, por dentro, ainda está húmida?

    Cozinhar assim é um risco. Entrego o prato sem poder provar, indefeso perante quem sirvo. Hoje, um cliente que sabia distinguir – o mar do gelo – escolheu a sua sardinha e voltou para repetir. Naquele gesto, reconhecimento. Não procurava a perfeição, procurava a verdade. No final, percebi que mesmo stressado e com as mãos a arder, a minha história transpareceu. O que lhes dei não foi apenas peixe; foi a presença de quem já cercou o mar de prata e sabe que, ao fogo, a mão nunca mente.

  • A resistência é compasso

    O cansaço provoca o desgaste da percepção; o momento em que a ferramenta deixa de ser corpo e volta a ser metal. É o ruído que ameaça a unidade.

    A resposta é bruta: o café e o tabaco para mascarar a falha, e o excesso de intervalos que, na tentativa de recuperar o fôlego, acabam por quebrar o ritmo. Viver aos soluços.

    A resistência não é força, é compasso. É o rito que sustenta o gesto quando a vontade se fragmenta. Menos esforço bruto, mais método.

    O metal pesa,
    O ritmo é âncora,
    O gesto liberta.

  • O dia não foi uma construção

    O dia não foi uma construção; foi uma demolição controlada por ordens externas. A consciência, que exige lentidão para ser habitada, foi expulsa pela urgência dos postos.
    O que resta, neste cigarro ao fim do turno, é a tentativa de colar os cacos de uma perceção que hoje foi obrigada a ser fragmento.