scriptoriumdigital.org

reflexões, ficção e outras narrativas

Tag: ética

  • A Economia do Capital Cultural

    Missiva a um Artífice.

    Car@ amig@,

    Escrevo-te estas linhas ao final da jornada, quando o ruído do dia finalmente amaina, a bancada fica limpa e o pensamento encontra espaço para serenar. Fiquei a ruminar nessa questão, nessa inquietação tão premente sobre o que é, afinal, o capital cultural e de que modo um artífice, a partir da margem das grandes instituições, pode gerir essa moeda sem se deixar asfixiar nem corromper por ela.

    Para assentarmos praça e compreendermos aquilo que temos em mãos, convém regressar a Pierre Bourdieu, designadamente aos seus trabalhos como ‘A Distinção’ (1979) ou o seu ensaio «As Formas do Capital» (1983). Ele demonstrou, com muita clareza, que a cultura não é uma ilha de pureza estética ou uma dádiva etérea da natureza, mas sim uma forma de capital que opera no tecido social exactamente com as mesmas dinâmicas de acumulação e poder do capital económico. Ele dividiu esta moeda simbólica em três estados fundamentais: o incorporado, o objectivado e o institucionalizado. O incorporado é o saber-fazer, o habitus e a postura assimilados desde a infância, revelando-se na destreza no maneio de uma ferramenta, no domínio natural de uma linguagem ou na intuição para temperar um guisado sem recorrer a medições; o objectivado traduz-se na posse física dos bens simbólicos, como os livros da nossa biblioteca, os instrumentos de trabalho, as ferramentas de uma oficina ou a nossa própria infra-estrutura digital; e, por fim, o institucionalizado, composto pelos diplomas, cartas de curso e títulos académicos que conferem uma chancela oficial de competência e autoridade.

    Na leitura sociológica clássica, este capital serve sobretudo para a reprodução de classe e para o exercício de violência simbólica: a elite do centro utiliza o seu capital institucionalizado e erudito para erguer muros invisíveis, definindo rigidamente quem «sabe» e quem «carece», remetendo o trabalhador ou o artífice da periferia para uma condição de permanente falta. Todavia, é precisamente neste ponto que a viragem promovida pela Escola de Birmingham — com Raymond Williams em ‘Culture and Society’ (1958) e Stuart Hall no seu modelo de ‘Codificação/Decodificação’ (1980) — nos traz uma verdadeira libertação. Ao afirmar que «a cultura é ordinária», Williams valida os saberes empíricos, manuais e comunitários como capital cultural de pleno direito. Hall, por seu turno, lembra-nos que a posse deste capital próprio nos concede a autonomia e o instrumento crítico necessários para operar leituras negociadas ou oposicionalmente resistentes frente ao discurso hegemónico.

    Mas como se gere, afinal, a economia deste capital na prática concreta do nosso dia-a-dia?

    Poupar capital cultural não significa acumular erudição académica para exibição ou ostentação social; significa, antes, praticar uma higiene mental e uma temperança quotidiana, recusando o consumo apressado da informação descartável e do entretenimento efémero oferecido pelos silos digitais. Investes este capital quando dedicas o teu tempo ao estudo paciente e silencioso, ao domínio de uma técnica de raiz ou à leitura em voz alta no seio da tua família, criando uma reserva moral e intelectual que confere soberania e serenidade à tua casa.

    No que respeita à ética no uso deste tipo de capital: utilizar o conhecimento para humilhar o vizinho ou para exercer superioridade sobre quem não teve o mesmo acesso aos livros é reproduzir a própria violência do centro que criticamos. Pelo contrário, se for para garantir que o teu trabalho não é alienado, que a tua arte conserva a dignidade ou que a tua vida não fica subjugada ao capricho do mercado, então o seu uso é um gesto inteiramente legítimo e nobre.

    Esta gestão estende-se, naturalmente, à relação com a terra e com a comunidade. Tratamos do solo quando aplicamos o capital cultural incorporado da agroecologia: ao observar atentamente os ciclos das estações, ao respeitar a estrutura viva do solo sem o esgotar em nome de um rendimento imediato e ao preservar as sementes crioulas para os anos vindouros. E, quando a terra ou a oficina geram excedentes — seja na forma de um cesto de hortaliças ou na forma de uma reflexão teórica densa —, esse excesso não deve ser acumulado com avareza nem desperdiçado. Partilham-se os alimentos com os vizinhos e a comunidade mais próxima; partilha-se o conhecimento através da palavra escrita, do código aberto e da oficina aberta. Partilhar capital cultural é, em última análise, ensinar o outro a manusear a própria ferramenta, capacitando-o para que ele se torne, também, um artífice soberano da sua própria existência.

    A verdadeira erudição da margem nasce deste hibridismo constante: cruzar a teoria crítica e o cânone com o saber-fazer da prática material. O capital cultural não é um troféu para exibir numa parede nem um título para ostentar na praça pública; é a matéria-prima com que esculpes a tua autonomia e sustentas os teus com dignidade. Afinal, como dizia Williams, a cultura é o modo de vida inteiro.

    Com a fraternidade de sempre,

    Manoel da Costa

  • Breve introdução à ética

    Ética é o ramo da filosofia que reflecte sobre a natureza do bem e do mal, sobre os valores que distinguem uma atitude correcta de outra errada, sobre qual a forma moralmente adequada de agir. Sabemos que os seres humanos agem motivados por razões pessoais, tendo em vista os seus próprios fins. Mas podemos considerar a felicidade como aquele bem último que todos os seres humanos almejam alcançar. Reconhecendo que o seu significado varia de pessoa para pessoa, cabe aos filósofos determinar a natureza dessa felicidade.

    Embora rejeitando certas concepções de felicidade (vidas dedicadas à obtenção de riqueza, honras ou prazer físico), Aristóteles afirma que “a felicidade é o mais extremo dos bens que a acção humana procura obter.” (Aristóteles 1095) Para o Estagirita, felicidade é ter uma vida que manifeste aquelas características que nos distinguem como seres humanos; levar um género de vida que, submetendo as paixões à razão, exprima a nossa própria essência. Neste sentido, o nosso impulso para a felicidade deve ser conduzido por uma conduta virtuosa. Para Aristóteles, uma vida feliz será uma vida excelente, virtuosamente vivida.

    Para Immanuel Kant, a felicidade e o prazer referem-se aos sentidos e não têm valor moral. Na sua perspectiva, as acções humanas devem ser orientadas por um conteúdo moral, praticadas por dever. “Uma acção practicada por dever tem o seu valor moral, não no propósito que com ela se quer atingir, mas na máxima que a determina […]” (Kant 30). Numa máxima, o conteúdo moral exige que as acções sejam practicadas por dever. O indivíduo não deve ser motivado por inclinação imediata ou interesse pessoal, mas agir por respeito à lei moral. Por isso, Kant traça o imperativo categórico, um imperativo único do qual podem derivar todos os imperativos do dever: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.” (Kant 59)

            John Mill, ao contrário de Kant, sustenta que não só a felicidade tem um valor moral, como é o objectivo último para o qual se dirigem todas as acções humanas. Ele entende esta felicidade como “o prazer, e a ausência de dor,[…] as únicas coisas desejáveis como fins” (Mill 51). No entanto, não é a quantidade de prazer, mas a sua qualidade, que é relevante e decisiva. Mill valoriza os prazeres superiores (do intelecto, da imaginação, dos sentimentos morais) em detrimento dos prazeres inferiores (ligados às necessidades físicas, como comer, beber, sexo). Insiste, ainda, que se deve considerar o bem-estar de todos e não apenas o de uma única pessoa. Moralmente, as acções serão tanto mais correctas quanto permitam a maior felicidade para o maior número de pessoas.

    Temos, assim, três diferentes perspectivas éticas: i) a visão de Aristóteles, uma ética de virtudes, baseada naquilo que uma pessoa humana deve ser; ii) a ética Kantiana, baseada em deveres morais, em regras que devemos obedecer; iii) e o utilitarismo de Mill, uma ética baseada em resultados, que pretende «maximizar a felicidade para a maioria das pessoas».

    BIBLIOGRAFIA:

    ·        Aristóteles. Ética a Nicómaco. Trad. António Castro Caeiro. Lisboa: Quetzal, 2004.

    ·       Kant, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.

    ·  Mill, John Stuart. Utilitarismo. Revisão científica, introdução e notas de Pedro Madeira. Lisboa: Gradiva, 2005.