O Cânone como Dispositivo Estético e Existencial.
O cânone ocidental de Harold Bloom (1930 – 2019) consiste no conjunto de obras literárias seleccionadas estritamente com base no seu valor estético intrínseco e na sua originalidade, transcendendo quaisquer critérios ideológicos ou políticos. Este cânone opera através de uma luta agonística de influência entre autores (um combate espiritual, estético e intelectual entre pares), na qual a força artística e a mestria da linguagem se afirmam perante a sombra dos precursores. Tem William Shakespeare como seu centro soberano porque, neste autor, a representação da mente humana é tão profunda que antecipa, contém e explica todas as teorias modernas que o tentam analisar. A finalidade última do conjunto canónico ocidental consiste em dar resposta à escassez do tempo e à certeza da nossa mortalidade, actuando como o instrumento autêntico da Arte da Memória que enriquece a vida interior, ajuda o leitor a pensar por si mesmo e lhe concede os meios para suportar com dignidade a solidão perante o triunfo do tempo e a morte.
Pressupostos e Critérios da Sabedoria
A sabedoria que o crítico literário Harold Bloom encontrava nos livros converge de três critérios que ele julgava fundamentais: o fulgor estético, a capacidade cognitiva (o rigor de percepção) e a força intelectual (o vigor da reflexão). Para ele, a sabedoria emanava exclusivamente de obras cuja densidade de linguagem e poder de reflexão resistem ao desgaste do tempo e alimentam a inteligência do leitor.
Segundo este teórico norte-americano, a sabedoria não deriva de uma especulação teórica abstracta, mas de uma urgência somática e existencial que é provocada pelo envelhecimento, pela doença e pela perda irreparável dos seus próximos. A sageza pressupõe a aceitação lúcida de que a morte é a condição incontornável da existência humana, e a literatura sapiencial ergue-se como o espaço onde o indivíduo aprende a reconhecer o triunfo do tempo e a limitação do seu próprio intervalo de vida.
Esta sabedoria não traz conforto sentimental. É, antes, uma «Perfeição» ambivalente que tanto pode absorver como destruir o leitor, dependendo da densidade interior com que este a aborda. Trata-se de uma sabedoria austera e exigente, suspensa entre a ironia e a tragédia, onde o temor e a consciência funcionam como o início do verdadeiro discernimento.
Como Bloom sublinhava, a aquisição desta sabedoria é uma experiência estritamente individual e solitária, incapaz de oferecer garantias de salvação cívica ou de acalmar crises colectivas imediatas. Ele esclarecia que a literatura de sabedoria ensina o indivíduo, no recolhimento da sua reflexão, a reconhecer e aceitar os limites naturais da condição humana, preparando o espírito para o silêncio e para a aniquilação inevitável do eu.
Contudo, esta sabedoria exige um equilíbrio dinâmico entre a afirmação da individualidade e a responsabilidade moral perante os outros, recusando tanto o egoísmo estéril como a resignação passiva. Ela consolida-se no dever de agir no presente e de perseverar no trabalho de interpretação e construção da vida, ciente de que, embora não seja exigido ao homem concluir a obra, também não lhe é dado o direito de abandonar o seu empenho.

