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Reflexões, ficção e outras narrativas



Investigar é uma forma de permanecer.

Tag: humanidades

  • O Copo de Água


    Há dignidade no copo em cima da mesa. Não apenas na transparência mas na promessa da sede saciada. O copo espera, contendo em si a clareza que muitas vezes falta ao pensamento.
    Olhar para ele pacientemente: a água imóvel, mas viva, atravessando o sol em pequenos pedaços que dançam na madeira da mesa. Beber esta luz antes que o sol finde.

  • A resistência é compasso

    O cansaço provoca o desgaste da percepção; o momento em que a ferramenta deixa de ser corpo e volta a ser metal. É o ruído que ameaça a unidade.

    A resposta é bruta: o café e o tabaco para mascarar a falha, e o excesso de intervalos que, na tentativa de recuperar o fôlego, acabam por quebrar o ritmo. Viver aos soluços.

    A resistência não é força, é compasso. É o rito que sustenta o gesto quando a vontade se fragmenta. Menos esforço bruto, mais método.

    O metal pesa,
    O ritmo é âncora,
    O gesto liberta.

  • O dia não foi uma construção

    O dia não foi uma construção; foi uma demolição controlada por ordens externas. A consciência, que exige lentidão para ser habitada, foi expulsa pela urgência dos postos.
    O que resta, neste cigarro ao fim do turno, é a tentativa de colar os cacos de uma perceção que hoje foi obrigada a ser fragmento.