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Reflexões, ficção e outras narrativas



Investigar é uma forma de permanecer.

Tag: humanidades

  • Vencendo o torpor tecnológico

    Não preparo apenas comida; participo num processo de formação — uma paideia de sentidos que responde à complexidade do mundo. Cada ingrediente trabalhado com rigor exige uma atenção profunda, uma escuta da matéria que me impede de cair no torpor tecnológico. Ao contrário da entrega passiva às lógicas digitais, o meu agir na cozinha é uma forma de me manter como sujeito da minha própria experiência existencial. Ao formar o prato, formo-me a mim mesmo: recupero a capacidade de ser o compositor da minha própria história.

  • Prumo

    A alma raramente habita em esquadria. Entre o desenho técnico de uma fachada e o grito de uma tela de Bacon, existe o espaço onde eu existo: o lugar onde o prumo tenta medir o abismo.

  • Inverno soturno numa cidade sombria

    SPLEEN

    Pluviôse, irritado com toda a cidade,
    Da sua urna, em caudais, verte um frio tenebroso
    Sobre aquele cemitério e seus moradores pálidos
    E traz mortalidade aos arredores brumosos.

    No mosaico, o meu gato, em busca de conchego,
    Vai agitando o corpo tão magro e sarnento;
    Vagueia pla goteira a alma de um poeta
    Com a sua triste voz de fantasma friorento.

    Lamenta-se o moscardo, e a lenha, que fumega,
    Acompanha em falsete o relógio engripado,
    Enquanto num concerto de sujos perfumes,

    Como herança fatal de uma hidrópica velha,
    O valete de copas e a dama de espadas
    Falam sinistramente dos amores defuntos.

    — Charles Baudelaire

    O poema “Spleen” foi escrito por Charles Baudelaire no sec. XIX, em Paris, quando esta se impunha como a primeira metrópole moderna. Este soneto retrata o ambiente de um dia de Inverno numa grande cidade. O poema utiliza a descrição de uma paisagem urbana decadente para oferecer uma visão intensa e sensorial do estado de tristeza, depressão, angústia e  profunda melancolia que define o próprio spleen. Através da representação de uma cidade afetada pela chuva e pelo frio persistente, da representação de figuras decrépitas em estado de sofrimento doentio, da personificação de um jogo de cartas como palco para a recordação de perdas passadas, o texto transmite um sentimento avassalador de mal-estar, tédio e a presença inescapável da morte. Este poema não é uma narrativa «cronológica», mas uma sucessão de imagens que expressam um ambiente soturno, até macabro e de horror. Tais imagens decorrem do global para o particular, da cidade para o doméstico, do espaço exterior para o interior anímico do próprio sujeito lírico.

    A primeira estrofe descreve de forma mórbida uma paisagem urbana desolada e devastada pela mortalidade. O sujeito lírico começa por construir o ambiente geral do poema, esclarecendo o tempo e o lugar onde se irão suceder as imagens posteriores: logo no início indica o antigo mês republicano francês de Pluviôse (Janeiro/Fevereiro), um dia rigoroso de Inverno que jorra um “frio tenebroso” por todo o burgo. É neste espaço urbano que se desenrola o poema. Uma urbe da qual destaca, acima de tudo, o efeito do clima rigoroso que se estende “sobre aquele cemitério e seus moradores pálidos/ E traz a mortalidade aos arredores brumosos. //“. Encontramo-nos, então, perante uma cidade fustigada pelo rigor do Inverno, pelo frio e pela chuva, que resulta num mal-estar coletivo de sofrimento, doença e morte. É, sem dúvida, um ambiente mórbido, este que logo na primeira estrofe é representado.

    A segunda estrofe refere um espaço doméstico, também ele doentio. Dá-se uma mudança de escala, passa-se da cidade para um contexto de maior proximidade, como é indicado pela presença do “meu gato”, “tão magro e sarnento”, que procura refúgio, agitado e sem sossego; ou pela goteira ruidosa, pela sarjeta onde “vagueia … a alma de um poeta” triste. O gato e esta goteira são objetos próximos, indicando um edifício onde o sujeito lírico se encontra, já não tão distante e vago como o aglomerado urbano representado na estrofe anterior. O ambiente descrito mantém a sua característica doentia, de sofrimento e de morte. O gato escanzelado está visivelmente enfermo e, da goteira ,o som que se ouve é triste, frio, fantasmagórico: “Vagueia pela goteira a alma de um poeta / Com a sua triste voz de fantasma friorento. //”. A sensação de estranheza e solidão do poema é amplificada.

    Na terceira estrofe são descritos objetos e entidades degradadas, em sofrimento, mas os seus aspetos são mais precisos e refinados, uma vez que nos encontramos num espaço de, ainda, maior proximidade. Agora é retratado o espaço interior através de um inseto lamuriosos, de lenha que fumega, de um relógio de pêndulo avariado. De notar que, na medida de maior proximidade, é estimulado o sentido da audição, que é suscitada pelo lamento, por termos como falsete e concerto. O sujeito lírico continua a utilizar a doença e a sugerir a morte, atribuindo características tristes, sujas e desagradáveis aos objetos e acontecimentos que personifica: um “relógio engripado”, um concerto de aromas sujos.

    A quarta e última estrofe parece representar um estado anímico interior, ao rematar o soneto com uma personificação que pode ser entendida como uma alucinação do próprio sujeito lírico: ele escuta um diálogo entre duas cartas de baralho, que conversam entre si. “O valete de copas e a dama de espadas / Falam sinistramente de amores defuntos. //”, abordando o passado perdido e terminando a falar de morte, tal como no início do poema.

    O título deste soneto é sugestivo: “Spleen”, que, em francês, expressa um estado de espírito depressivo de letargia, de tédio, de vazio existencial. E é o que este poema nos oferece. Nele podemos observar um sujeito lírico que transmite sensações desconfortáveis, impressões de um momento mórbido na cidade. Ele utiliza elementos simbólicos e decadentes para criar um ambiente sombrio, uma atmosfera soturna de mal-estar, de sofrimento aflitivo, de melancolia angustiada, do tal vazio existencial.



    REFERÊNCIAS:

    • Baudelaire, Charles. “Spleen”. As Flores do Mal, traduzido por Fernando Pinto do Amaral, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992, pp. 192-193.