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Reflexões, ficção e outras narrativas



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Tag: humanidades

  • Para que serve um crítico literário?

    A arte está intimamente relacionada com o público que a consome. Neste, existe um grupo ideal constituído pelos críticos de arte. São um público privilegiado: profundos conhecedores, os críticos são, por um lado, consumidores de arte informados e, por outro, produtores de textos que nos pretendem influenciar. Eles formulam argumentos e emitem juízos acerca da obra de arte. Ajudam-nos a interpretar, a contextualizar e a situar uma obra em relação a outra. Permitem-nos reflectir e ampliar o entendimento que fazemos das obras que observamos.

    A palavra “crítica” vem do grego “krinein”, que significa entender, examinar, estudar. O termo também é usado para separar e distinguir, escolher, decidir, com o sentido de que não há pré-julgamentos. A crítica consiste no comentário e na interpretação de obras de arte por meio de palavras. Trata-se de uma observação e análise aprofundada, com o intuito de compreender o trabalho do autor e facilitar a sua apreciação pelo público.  O crítico é alguém que, perante uma obra de arte, procura demonstrar a verdade que tal obra lhe comunicou.

    De acordo com o e-Dicionário de Termos Literários, a ‘crítica literária‘ pode ser entendida como  “a produção de um discurso acerca de um texto literário individual ou da obra global de um autor, independentemente da situação de comunicação que desencadeia e/ou particulariza esse discurso.” (Martins 2009) A crítica literária consiste na leitura e análise aprofundada de um texto, com o intuito de compreender o trabalho do autor e contribuir para a sua apreciação pelo leitor. Esta crítica tem por finalidade ler de forma inteligente um texto e comunicar essa análise ao leitor da crítica, enriquecendo o seu olhar sobre a obra. Para isso, o crítico deve construir um discurso organizado e responder às questões que o texto levanta. Se, no final da leitura da crítica, o leitor encontrar respostas para essas questões, então a crítica foi bem sucedida.

    O objecto da crítica literária é o texto literário. A crítica “nasce de uma relação entre esse texto e o crítico que o vai analisar.” (Júdice, 2010, p. 11) O crítico deverá permanecer distanciado “se quiser construir um discurso organizado, no aspecto conceptual, sobre o objecto da crítica.” (Júdice, 2010, p. 15) A crítica deve ultrapassar a leitura superficial e atingir uma leitura inteligente que responda a: i) porque esta obra suscita prazer ao leitor? ; ou ii) porque esta obra afasta o leitor?

    A crítica literária é análise avaliativa das produções artísticas. A leitura feita por alguém que analisa é diferente da casual. A partir do estudo das características de cada texto, o crítico literário é o responsável por apontar os acertos e as falhas de determinada produção em termos estéticos, linguísticos e retóricos. A análise é uma aproximação ao universo da obra “ajudando a compreender os mecanismos que o autor utilizou para que o leitor entre ou se afaste da sua obra.” (Júdice, 2010, p. 13)

    Uma leitura crítica “deve abrir ao leitor a compreensão da obra, interpretando, descodificado, integrando o livro no contexto em que é produzido, etc.” (Júdice, 2010, p. 57) A crítica deve ter a função de esclarecer o leitor ingénuo”sobre géneros, estilos, movimentos, enfim, tudo o que constitui a diversidade e a plural coexistência da criação de linguagens dentro de uma História literária.” (Júdice, 2010, p. 58) A crítica pretende”mudar ou enriquecer o olhar do leitor perante o livro.” (Júdice, 2010, p.14) Os críticos têm”um papel decisivo no estabelecimento de uma relação do texto com o seu leitor, mediando essa relação e estabelecendo cânones (…)” (Júdice, 2010., p. 63)

    Um crítico é aquele que julga, avalia, comenta ou investiga as obras literárias. A função do crítico é contribuir para a compreensão da obra e para a abrir ao leitor. Ele tem um papel mediador, é um adjuvante da leitura. O crítico literário aponta detalhes e elementos que enriquecem a experiência de leitura. Com sua bagagem, ele oferece interpretações que passariam despercebidas, ou seja, dificilmente seriam valorizadas pelo leitor casual. Então, podemos dizer que esta atividade serve para tornar públicas as características que merecem destaque em uma obra.

    “O lugar do crítico é o do leitor: e, aí, tentar encontrar as questões que o texto coloca a quem o lê, procurando dar-lhes uma resposta já que a simples leitura não tem esse fim.” (Júdice, 2010, p. 17) Se, ao ler a crítica, o leitor encontra respostas às questões que o texto levanta, então o crítico pode dar-se por satisfeito e a crítica atingiu o seu objetivo. Pelo contrário, se no final da leitura da crítica o leitor termina sem nenhum esclarecimento ou até mais confuso (devido à linguagem, ao estilo do crítico, etc.) então é porque a crítica falhou, o crítico não desempenhou bem a sua função.

    Bibliografia:


    – Júdice, Nuno. (2010) ABC da crítica. Publicações D. Quixote.

    – Manuel Frias Martins: s.v. “Crítica Literária”, E-Dicionário de Termos Literários (EDTL), coord. de Carlos Ceia, ISBN: 989-20-0088-9, https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/critica-literaria , consultado em 08-03-2025

  • Notas introdutórias à questão do cânone

    O cânone literário consiste no conjunto de obras literárias consideradas mais importantes e influentes da tradição. O cânone é uma seleção de textos adotados por uma comunidade, que produzem e reproduzem valores, que definem aquilo que é legítimo ou proibido. As obras canônicas são aquelas que exerceram maior influência sobre as obras posteriores e que apresentaram maior originalidade na sua época.

    “O tempo será, sempre, o grande factor de autoridade na definição de um cânone.” – Nuno Júdice

    Como explica Nuno Júdice, no ABC da crítica (2010), o reconhecimento literário, para inclusão de obras no cânone, “decorre de instâncias várias, desde a tradição, em que se inscrevem dicionários, enciclopédias, histórias literárias, a instituições, como academias, escola, universidade, etc. [ … Este reconhecimento] constitui uma instância de poder: aquele poder que decide que obras devem entrar no cânone, ou não.” (p. 22) A discussão inter pares, a consagração editorial, a crítica académica, decidem se dada obra pertence a um período literário, se é (ou não) incluído no cânone. Assim, para este autor, o reconhecimento canónico é a aceitação de uma obra por parte da sociedade ou da instituição académica.

    No caso do cânone ocidental de Harold Bloom, este é constituído pelas obras literárias que ele considera mais importantes e influentes da tradição ocidental, segundo aspectos estéticos e de originalidade. Este autor defende a ideia de que essas obras possuem um valor intrínseco, que transcende as questões sociais e políticas. Ele valoriza a beleza e a originalidade das obras literárias, em detrimento de critérios ideológicos ou políticos. Ou seja, para Harold Bloom, o cânone ocidental foi obtido pela seleção das obras literárias da tradição ocidental com base em critérios estéticos.

    Também para Nuno Júdice, a inclusão de uma obra no cânone exige “uma objectividade que depende sobretudo de critérios estéticos – que são os que contam, na avaliação da qualidade das obras – e não políticos, ideológicos e muito menos promocionais.” (p. 25) A História Literária tem um percurso próprio, imune a juízos de moda ou de época. A literatura “não pode estar dependente nem da moda nem do mercado. Pelo contrário, é da fixação de um modelo canónico que se estabelece o respeito por determinadas orientações estéticas ou, pelo contrário, pela desobediência a essas orientações.”(p. 51) Para além disso, “a fixação de um cânone não pode ser a eliminação das diferenças, nem a simplificação de um passado.” (p.36) Os autores do cânone, grandes e pequenos, são fundamentais para percebermos de onde vimos e a sociedade que fomos construindo, quais as origens da nossa cultura e quais os mitos ou modelos que persistem.

    “O cânone literário é, assim, o corpo de obras (e seus autores) social e institucionalmente consideradas “grandes”, “geniais”, perenes, comunicando valores humanos essenciais, por isso dignas de serem estudadas e transmitidas de geração em geração.” (Duarte, 2009)

    Referências:

    • Bloom, Harold. O cânone ocidental. Temas e Debates. 2011
    • Duarte, João Ferreira. “Cânone”. e-Dicionário de Termos Literários. UNL. 25-03-2025. https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/canone
    • Júdice, Nuno. ABC da crítica. Publicações D. Quixote. 2010
  • Aspectos da Hipermodernidade

    Hipermodernidade é o termo utilizado pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky para referir o estágio actual da sociedade humana. Este período é caracterizado por uma cultura de excesso. Na senda do modernismo, tudo é exagerado e levado ao extremo. Integra-se o passado numa nova lógica de mercado, de grande consumo, de avanço tecnológico e de individualização exacerbada. Trata-se de um liberalismo globalizado, de uma mercantilização da técnica e dos modos de vida, de um individualismo extremo.


    O hipercapitalismo refere um mercado global cujas regras liberais se estendem a todos os continentes do planeta. Os grandes fluxos financeiros redesenham o mercado e o capital dos grandes fundos concentram-se na especulação. As fronteiras passaram a permitir a troca de bens e serviços de uma forma mais livre e flexível. As empresas internacionalizaram-se e esforçam-se por satisfazer a demanda maciça dos clientes. Elas lutam por quotas de mercado contra uma concorrência cada vez mais eficiente e poderosa. As cadeias de produção e distribuição também se modificaram, com as fábricas a relocalizarem-se em países onde a mão-de-obra é mais barata e com os produtos a atravessarem o mundo inteiro para chegar ao cliente final.


    O culto da felicidade tornou-se central no hiperconsumismo. As sociedades actuais organizam-se com vista a criar um quotidiano mais confortável e fácil, o que é sinónimo de felicidade. A sociedade de consumo procura esta felicidade através da aquisição de bens, de serviços e de informação. Para responder a tal demanda, as campanhas de marketing e publicidade impregnam-se com mensagens que estimulam sensações de felicidade. Por outro lado, neste novo mercado global, os consumidores são cada vez mais informados e exigentes, querendo a satisfação imediata de produtos personalizados. Com o recurso das novas tecnologias de comunicação,
    compram, por impulso, as últimas novidades das marcas de luxo. A cultura de busca do prazer imediato participa na promoção e manutenção do hiperconsumismo.

    A sociedade de consumo promove o isolamento social e acarreta sérios problemas de alienação, como sejam a ansiedade, a depressão ou o suicídio. Enclausurados pelas novas tecnologias da informação, os seres humanos fecham-se num casulo. Acresce que o homem contemporâneo participa de uma
    competição constante, transpondo para a sua vida quotidiana as mesmas leis do mercado; vive em função do seu desempenho, da sua produtividade ou do seu nível financeiro. Enquanto isso, as referências colectivas evaporaram-se sucessivamente. Assistimos a um hiperindividualismo, numa sociedade praticamente desprovida de valores morais. Os indivíduos mobilizam-se em torno dos seus interesses pessoais e não mais em função das grandes ideologias, sejam religiosas, políticas ou outras. Estas perderam a sua força de outrora. No entanto, embora estas ideologias tenham colapsado, surgiram novos
    discursos que o consumidor valoriza: primeiro, os direitos dos homens, depois, a ideologia médica (a saúde) e, finalmente, as questões ambientais e ecológicas.


    A hipertecnologia encarna a fascinação e a força da novidade. Podemos constatar que a técnica invadiu todos os domínios da vida humana. Impôs-se como cultura global trazendo uma nova maneira de ser, de pensar e de viver. A técnica apoderou-se dos seres vivos, tornou-se omnipresente, tentacular e ilimitada. Esta loucura tecno-mercantil provoca um produtivismo frenético e um
    desperdício enorme. A tecnologia, associada ao liberalismo económico, resulta numa mercantilização ilimitada e num desperdício desmesurado. Esgota os recursos naturais, provoca alterações climatéricas e tem impacto negativo na saúde pública.


    Assim, a hipermodernidade pressupõe estas quatro dimensões: o hipercapitalismo, o hiperconsumismo, a hiperindividualização e a hipertecnologia. A sociedade contemporânea transformou-se num mercado global. Os indivíduos tornaram-se numa rede de consumidores ansiosos pela última novidade. Com excesso de informação, o homem contemporâneo, assume os valores e princípios mercantis. Em constante competição, individualiza-se e isola-se numa espiral de alienação, frustração e depressão. A tecnologia instala-se e modifica todos os aspectos de vida comum e do planeta, com impactos acentuados na qualidade de vida dos seres humanos e degradação da biosfera.