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Reflexões, ficção e outras narrativas



Investigar é uma forma de permanecer.

Categoria: Colheita

  • A Ode como legado clássico


        A idade de ouro da literatura romana clássica foi a época de Augusto. Durante esse período atingiu-se a perfeição nos géneros literários praticados. Dava-se continuidade à tradição grega, imitando-se os motivos e as técnicas da sua poesia. É neste contexto que podemos apreciar Odes, de Horácio, exemplo de poesia lírica. Foi através dele que chegou até nós a ode de origem grega, embora adaptada. Horácio foi o principal transmissor da ode para as modernas literaturas nacionais.

         Em tradução livre, ode significa “canção”. No verbete sobre Ode, de Ana Ladeira, no E-dicionário de Termos Literários (coord. de Carlos Ceia), podemos ler que “a ode era, na antiguidade clássica, um poema lírico, normalmente de alguma extensão, e de assunto elevado e nobre, expressando sentimentos ilustres, em celebração de algum evento especial.”

         Originais da Antiguidade Grega, as odes seriam poemas acompanhados por música, com forma de canto, individual ou por grupos (coro). Tal como a restante poesia lírica, não tinha rima e o metro era baseado na sequência de sílabas curtas e longas (pés). A estrutura métrica era muito variável e criava um efeito característico. A poesia grega era para ser escutada, mais do que lida.

         No entanto, de acordo com Pedro Braga Falcão, na introdução à sua tradução de Odes, de Horácio (Livros Cotovia, 2018), parece que as odes horacianas não foram escritas para serem cantadas. Nem nenhum dos ritmos usados por Horácio terá sido criado por ele. Os seus ritmos inserem-se na tradição lírica grega. O poeta inspirou-se nos metros e nos temas dos autores gregos, adaptando-os à realidade romana.

         A obra de Horácio constitui o modelo mais influente nas odes da literatura ocidental. Quer isto dizer que grande parte das odes dos séculos posteriores foram inspirados pelos poemas de Horácio. Os poetas do Renascimento começaram por escrever poemas em latim, inspirados pelos autores da Antiguidade Clássica, Posteriormente, também se compôs em línguas vernáculas este tipo de poesia. A ode espalhou-se pelas literaturas europeias, sob a influência do classicismo.

         Em Portugal, foi logo desde o Renascimento que se cultivou este género literário, utilizando a ode horaciana como modelo artístico. Mais tarde, foi amplamente explorada no Arcadismo. Em 1865, Antero de Quental publicou as suas Ode Modernas. No século XX, Fernando Pessoa resgatou a ode, através dos seus heterónimos Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Também Miguel Torga recriou o esquema clássico das odes, adaptando a sua estrutura rítmica.

         Apesar das suas mutações, a forma da ode foi uma das mais resistentes na arte da poesia. Ela continua presente no panorama literário actual.

    Bibliografia:

    • Centeno, Rui (coord.). Civilizações Clássicas II: Roma. Lisboa: Universidade Aberta, 1997
    • Horácio, Odes. Trad. de Pedro Braga Falcão. Lisboa: Livros Cotovia, 2018

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  • A enunciação na poesia lírica

          Aos dois modos de enunciação, o mimético e o diegético, o drama e a narrativa, acresce um terceiro: a lírica. Esta não pretende recriar acções humanas, antes exprimir sentimentos. De acordo com Maria Correia, em LITERATURA INGLESA I: Época Renascentista, qualquer dos modos manifesta-se sem conseguir manter “uma ininterrupta pureza, ou, se preferirmos, monotonia enunciativa. A mistura irrompe a cada passo.“ (p. 371) Assim, qualquer modo enunciativo pode integrar os restantes. Na lírica, o modo de enunciação não é mimético nem diegético, embora possam ser detectadas situações de diálogo ou a presença ocasional de um narrador. Por outro lado, a acção embrionária que possa existir nos trechos lírico não se desenvolve em enredo.
         Todos os modos de enunciação têm um ponto de vista. A lírica tende para um ponto de atenção que coincide com o sujeito do enunciado. Isto leva-nos a confundir este sujeito do enunciado com o sujeito da enunciação, que, por sua vez, se confunde com o autor.
         Esta confusão do sujeito do enunciado com o sujeito da enunciação e com o autor ( a par do desenvolvimento poético do período do romantismo, com a sua tónica no individualismo do eu) levou a que a poesia lírica seja entendida como se fosse a «expressão do eu». Contudo, como explicita Correia, “não o é, sobretudo porque o texto [lírico] não se identifica [necessariamente] com a expressão do pensamento e do sentimento do autor.” (p. 378)
         No entanto, o sujeito do enunciado domina qualquer texto lírico: utiliza um ponto de vista predominante e instaura-se como ponto de atenção decisivo no seu próprio discurso. Não passa, porém, de uma personagem, de um ente de ficção que funciona como principal elemento organizativo da coesão do texto. O texto lírico submete-se ao poder aglutinador desta personagem, do sujeito do enunciado.

    Bibliografia:

    – Correia, Maria Helena de Paiva, e Maria Eduarda Ferraz de Abreu. LITERATURA INGLESA I: Época Renascentista. Lisboa: Universidade Aberta, 1996.

  • Epopeia, uma introdução

    A epopeia é a mais antiga das manifestações literárias. Trata-se de um poema narrativo de grandes dimensões que celebra uma acção grandiosa protagonizada por um herói com qualidades excepcionais. Embora a epopeia tenha fundamentos históricos, ela não apresenta os acontecimentos com fidelidade. Ela relata os acontecimentos revestindo-os com conceitos morais e actos exemplares, funcionando como modelo de comportamento. De acordo com o Dicionário de Literatura Portuguesa (Editorial Presença, 1996), “a literatura épica está intimamente ligada a tradições remotas, concretizadas na epopeia (do grego epopoiía), género narrativo em que se contam acções heróicas e grandiosas, essencialmente baseadas num imaginário e num tempo míticos.”

    Em Poética, Aristóteles considera que a epopeia seria uma imitação de homens superiores, com palavras e ajuda do metro heróico, o mais imponente e elevado dos metros. Para ele, a narrativa épica não possui limite, nem de espaço nem de tempo. A epopeia desenvolve o seu enredo, com diversos episódios, em torno de uma acção única e completa, com princípio, meio e fim.

    Os primeiros modelos ocidentais das epopeias são os Poemas Homéricos (Ilíada e Odisseia). Para além destes, destacaram-se ainda Eneida, do poeta latino Vergílio, e Os Lusíadas, do português Luís Vaz de Camões. Ilíada desenvolve-se em torno da Guerra de Tróia e do guerreiro Aquiles. Odisseia narra as aventuras do herói Ulisses, no seu retorno a casa, Ítaca. Eneida narra a saga de Eneias e a fundação de Roma. Os Lusíadas celebram os feitos marítimos dos Portugueses.

    Resumindo, podemos afirmar que a epopeia: i) é uma narrativa extensa com um fundo histórico, mesmo se por vezes apresenta factos que não são históricos; ii) regista, sob a forma poética, as tradições e os valores de determinado povo ou grupo étnico, recorrendo por vezes a lendas e a mitos; iii) apresenta as aventuras, reais ou lendárias, de heróis que se destacaram dos demais mortais.

    Bibliografia:

    – Aristóteles. Poética. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2018
    – Machado, Álvaro (org.). Dicionário de Literatura Portuguesa. Lisboa: Editorial Presença, 1996