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Reflexões, ficção e outras narrativas



Investigar é uma forma de permanecer.

Categoria: Biblioteca

  • Das meta-narrativas à pluralidade

    Paisagem urbana pós-moderna (Londres). Foto de Garry Knight. Fonte: wikimedia.

    A sociedade resultante da segunda metade do sec. XX vive num mundo onde factos e ficção se entrelaçam, onde as características produtivas se modificaram de forma inimaginável, onde a base teórica de suporte, a sua tradição, se alienou, ou, pelo menos, parece ter perdido valor. Nesta perspectiva, numa sociedade pós-industrial que se realiza na era dos media e da cibercultura, onde a informação se confunde com o ruído, parece natural que o indivíduo se sinta perdido, deslocado, traído, uma vez que se encontra submerso por mensagens díspares e incongruentes, sentindo-se impotente pela contínua e veloz mudança das condições de vida, da mutação vertiginosa das estruturas sociais e culturais, que o deveriam sustentar mas que parecem sufocá-lo.

    Num extenso período histórico anterior, nessa modernidade baseada no racionalismo iluminista que se desenvolveu desde o Renascimento, perseguiu-se uma verdade universal, um conjunto de valores sustentados pela razão que estabeleceram não só a moral vigente, mas que edificaram a própria sociedade, a sua cultura e a sua história. Princípios comuns aplicados indiscriminadamente guiaram a comunidade, as famílias e os indivíduos, organizando as suas relações e vivências. Estabeleceram-se (meta)narrativas que distinguiam a ordem do caos, discursos que preservaram certa espécie de poder contra todo e qualquer tipo de desvio à norma. Na senda do progresso e convictos da capacidade insuperável da razão humana, assistimos ao desenvolvimento de uma sociedade industrial e do capitalismo a ela associado, que prometeu libertar o ser humano das suas condições medievais mas que resultou no sofrimento das Grandes Guerras Mundiais e no horror de Auschwitz e dos restantes campos de concentração.

    Seguiu-se um período de revoltas sociais que lutaram por liberdade e independência, pela descolonização e pela emancipação da mulher. Nos anos 60 do século passado, os movimentos artísticos, saturados do mecanicismo e funcionalismo do Modernismo, corrente artística da primeira metade do século, reagiram com um formalismo livre e descontraído, incorporando elementos históricos e tradicionais no design dos seus edifícios. Aquilo que começou com a arquitectura (por exemplo, com as obras de Philip Johnson ou Renzo Piano) extravasou para outras expressões artísticas, como a literatura (Kurt Vonnegut) ou a música (Michael Nyman). O termo pós-moderno impôs-se e foi apropriado pela academia, já na década de 70, principalmente pelos pensadores franceses, como Lyotard, que definia pós-moderno como uma “incredulidade face às meta-narrativas”.

    A metanarrative is the story an ideology tells itself—an ideology of ideologies. It’s the “big picture” story that a mode of thinking, a theory, a worldview maintains to explain and legitimate its operations.

    (KLAGES, p.158)

    Os filósofos pós-modernos colocam em causa as «meta-narrativas», pois consideram-nas fabricadas por discursos de poder que impõem uma verdade e visão de mundo particular. Ora, vários pós-modernistas negam a existência de realidades objectivas, de verdades absolutas e universais. Argumentam que estas são sempre parciais, dependente do contexto histórico e social em que são “construídas”. Questionam, assim, uma história unificada, global e completa sobre tudo o que existe. Para eles, “These ‘metanarratives’ [‘super-narratives’], which purport to explain and reassure, are really illusions, fostered in order to smother difference, opposition, and plurality.” (BARRY, p. 127) Podemos considerar o pós-modernismo como a crítica às «meta-narrativas», “the awareness that such narratives serve to mask the contradictions and instabilities that are inherent in any social organization or practice.” (KLAGES, p. 159)

    Os pensadores pós-modernos negam a existência de qualquer verdade universal e não aceitam que exista apenas uma mundividência. A realidade, tal como o conhecimento, é fragmentada e plural, perspectivada por quem a experiência. Existem diferentes formas de ser e de saber. Maria Laura Pires (p. 93) afirma que “apenas podemos conhecer a nossa experiência pessoal e a nossa interpretação dessa experiência.” Para além disso, os pensadores pós-modernos “defendem a multiplicidade, a pluralidade, a fragmentação e a indeterminação. Abandonam ainda a noção de sujeito racional e unificado […] a favor de um sujeito fragmentado e social e linguisticamente descentrado.” (PIRES, p. 95)

    Como constata Peter Barry (p. 127), “as ‘Grandes Narrativas’ de progresso e perfeccionismo humano já não são sustentáveis, pelo que apenas podemos pretender uma série de ‘mini-narrativas’ provisórias, contingentes, temporárias, e relativas e que sirvam de base para a acção de grupos específicos em circunstâncias locais particulares.” Estas narrativas, mais pequenas, são estórias que explicitam pequenas prácticas, eventos locais, em vez de conceitos de grande-escala, universais ou globais. Para Mary Klages (p.159), estas “ ‘mini-narrativas’ pós-modernas são sempre situacionais, provisórias, contingentes e temporárias, não reivindicando universalidade, verdade, razão ou estabilidade.”

    Vivemos num mundo que já não suporta grandes narrativas e modelos universais, de pensamento e comportamento, antes fragmentado em saberes e significados, valorizando as especificidades locais e as liberdades individuais. É compreensível que as pessoas se sintam assustadas e perdidas nos seus referenciais costumeiros, que procurem verdades únicas e prácticas globais, que desejem uma visão dualista de ordem-caos. Sentem o seu mundo dilacerado e questionam as múltiplas opções. No entanto:

    For the postmodernist, by contrast, fragmentation is an exhilarating, liberating phenomenon, symptomatic of our escape from the claustrophobic embrace of fixed systems of belief. In a word, the modernist laments fragmentation while the postmodernist celebrates it.

    (BARRY, p. 123)

    BIBLIOGRAFIA:

    • Barry, P. (2017). Beginning theory: An introduction to literary and cultural theory (4th Edition – ebook, edição do Kindle). Manchester University Press. https://www.amazon.co.uk/gp/product/B07WFQ466H
    • Klages, M. (2017). Literary Theory: The Complete Guide (2nd Edition – ebook, edição do Kindle). Bloomsbury Publishing. https://www.amazon.co.uk/gp/product/B01NAHM5A8
    • Pires, M.L.B. (2006). Teorias da Cultura (2ª edição). Universidade Católica Editora.
  • O Sangue Negro de Noémia de Sousa

    Noémia de Sousa

    Noémia de Sousa (1926 – 2002)

    O universo literário de expressão feminina em Moçambique começou com a poesia de Noémia de Sousa a meio do século XX. A sua voz, ao protestar contra as opressões sofridas pelas mulheres moçambicanas, representa a resistência da mulher africana e dos povos de África.

    Poema: Sangue Negro
    
    Ó minha África misteriosa e natural,
    minha virgem violentada,
    minha Mãe!
    
    Como eu andava há tanto desterrada,
    de ti alheada
    distante e egocêntrica
    por estas ruas da cidade!
    engravidadas de estrangeiros
    
    Minha Mãe, perdoa!
    
    Como se eu pudesse viver assim,
    desta maneira, eternamente,
    ignorando a carícia fraternamente
    morna do teu luar
    (meu princípio e meu fim)...
    Como se não existisse para além
    dos cinemas e dos cafés, a ansiedade
    dos teus horizontes estranhos, por desvendar...
    Como se teus matos cacimbados
    não cantassem em surdina a sua liberdade,
    as aves mais belas, cujos nomes são mistérios ainda fechados! 
    
    Como se teus filhos – régias estátuas sem par –,
    altivos, em bronze talhados,
    endurecido no lume infernal
    do teu sol causticante, tropical,
    como se teus filhos intemeratos, sobretudo lutando,
    à terra amarrados,
    como escravos, trabalhando,
    amando, cantando –
    meus irmãos não fossem!
    
    Ó minha Mãe África, ngoma pagã,
    escrava sensual,
    mística, sortílega – perdoa!
    
    À tua filha tresvairada,
    abre-te e perdoa!
    
    Que a força da tua seiva vence tudo!
    E nada mais foi preciso, que o feitiço ímpar
    dos teus tantãs de guerra chamando,
    dundundundundun – tãtã – dundundundun – tãtã
    nada mais que a loucura elementar
    dos teus batuques bárbaros, terrivelmente belos... 
    
    para que eu vibrasse
    para que eu gritasse,
    para que eu sentisse, funda, no sangue, a tua voz, Mãe!
    
    E vencida, reconhecesse os nossos elos...
    e regressasse à minha origem milenar.
    Mãe, minha Mãe África
    das canções escravas ao luar,
    não posso, não posso repudiar
    o sangue negro, o sangue bárbaro que me legaste...
    Porque em mim, em minha alma, em meus nervos,
    ele é mais forte que tudo,
    eu vivo, eu sofro, eu rio através dele, Mãe!
    
    - Noémia de Sousa, no livro "Sangue negro". Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001, p. 141-142.

    A ‘mãe dos poetas moçambicanos’ nasceu perto do Oceano Índico, em Catembe, Moçambique, a 20 de Setembro de 1926. Aos seis anos de idade mudou-se com a família para Lourenço Marques, actual Maputo. Após o falecimento do pai, em 1932, Noémia de Sousa teve que trabalhar para ajudar a mãe a sustentar os seus 5 irmãos. De noite, começou a estudar no curso pós-laboral de comércio, onde era a única aluna negra da Escola Técnica. Por essa altura, publicou seu primeiro poema – Canção fraterna – no Jornal da Mocidade Portuguesa. Em 1951, encerrou a sua carreira de poetisa e rumou a Lisboa. Em 1962, casou-se com o poeta Gualter Soares, com quem teve uma filha. Por volta de 1964, fugiu da ditadura em Portugal em direcção a Paris. Regressou a Lisboa em 1975, onde trabalhou como jornalista. Faleceu em Cascais, Portugal, a 4 de Dezembro de 2002.

    Através da sua poesia, Noémia de Sousa assumiu o papel de porta-voz do povo moçambicano e questionou os problemas culturais, sociais e políticos de seu país. Recorrendo aos versos livres, com adjectivação e exclamação abundante, a sua linguagem apresenta um carácter intimista de forte emotividade, com traços narrativos e elementos nostálgicos. Prevalece, na crítica sociopolítica, uma voz feminina que afirma a negritude e exalta a cultura africana. É uma poesia acusatória e com forte impacto social que denuncia e protesta contra o longo período de dominação pelos colonizadores portugueses. Ela fala-nos de injustiça e opressão mas também de esperança, a esperança de um futuro melhor em liberdade.

    Poema: Um dia
    
    Um dia
    Quando este nosso sol ardente de África
    nos cobrir a todos com a benção do mesmo
    calor,
    quero ir contigo, amigo,
    de mãos dadas, deslumbrados,
    pelos trilhos abertos da nossa terra
    estranha,
    adubada com sangue e suor de séculos...
    
    Nas machambas,
    o ruído repercutido de tractor
    soará como uma canção de triunfo.
    Nas matas,
    as tutas já não serão aves apenas
    e no centro da vida,
    nosso irmão negro, quebradas as grilhetas,
    celebrará seu segundo nascimento
    num batuque diferente de todos os outros...
    
    Uma luz clara e doce se abrirá para todo
    e nós iremos de mãos dadas, amigo,
    pelos trilhos verdes de Moçambique.
    Na noite,
    não mais soluçarão, estertoradas,
    canções marimbadas por irmãos
    naufragados
    (ô mamanô! Ô tatanô!),
    Não mais a acusação muda dos olhos
    precoces
    de crianças de ventres empinados
    não mais jaulas erguidas para os
    inconformistas
    gritando gritos de sangue
    através de tudo!
    
    Não mais, noite...
    E nós iremos de mãos dadas,
    amigo,
    pelos trilhos abertos de Moçambique,
    mergulhados no clarão eterno do dia
    infindável.
    
    - Noémia de Sousa, no livro "Sangue negro". Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001, p. 114-115.

    A obra de Noémia de Sousa está dispersa por muitos jornais e revistas. Seus textos poéticos ficaram famosos ao serem divulgados em diversas publicações de antologias de poesia moçambicana. Apesar de ter influenciado várias gerações de poetas apenas viu um livro editado: Sangue Negro, que foi publicado em 2001, pela Associação dos Escritores Moçambicanos, como uma homenagem pelos 75 anos da escritora. Este livro reúne os 46 poemas escritos por Noémia de Sousa entre 1949 e 1951. Dez anos mais tarde, em 2011, a editora moçambicana Marimbique publicou uma nova edição de Sangue Negro. Em 2016, a editora Kapulana publicou o primeira edição brasileira do livro, que pode ser encontrado aqui. Em 2023, o seu livro ainda não fora publicado em Portugal.

  • Oposição lexical em Portugal

    Na segunda metade do século XX, Luís Lindley Cintra efectuou um estudo sobre as áreas lexicais no território português, concluindo que existem diversos tipos de estruturação lexical em Portugal. No entanto, chamou particular atenção para a oposição lexical que existe entre duas regiões: uma, a noroeste e oeste, que se estende a norte do rio Tejo, e que exclui os distritos da Guarda, de Castelo Branco e o oriente do distrito de Bragança; e uma outra região que ocupa o restante Portugal Continental. A zona de noroeste-oeste é mais conservadora, mantém os vocábulos mais antigos e não é tão propensa a inovações, em oposição à zona sul-leste que aceita mais facilmente os novos vocábulos. O autor estabelece um paralelo entre estas zonas e a dinâmica do povoamento do território: a primeira zona corresponde a um Portugal densamente povoado, onde as populações têm raízes profundas e são mais avessas a inovações, enquanto a segunda zona assistiu ao repovoamento nos séc. XII e XIII, foi ocupada por populações de várias proveniências que se instalaram em novas localidades e que eram propensas a aceitar novas formas de viver e de falar. Para o autor, é esta oposição entre as duas regiões que “parece estar na base de um dos traços essenciais – talvez o mais significativo – na estruturação lexical do território português.” (CINTRA 16)


    Bibliografia:

    – Cintra, L. F. “Áreas lexicais no território português” in Boletim de Filologia, vol XX. Lisboa: Centro de Estudos Filológicos, 1962. pp. 273-307