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Reflexões, ficção e outras narrativas



Investigar é uma forma de permanecer.

Categoria: Biblioteca

  • O Centro no Fogo


    A bancada era ordem: o vermelho da carne, o brilho do aço, o plano traçado. Depois, o grito dos “quentes”. Saí à pressa da minha secção, os utensílios fora do lugar. Mas a realidade não espera pelo rigor. Nos fogões, o tempo golpeia. Aguentar a pressão não é apenas fazer o trabalho; é impedir que o pânico desmonte o que sou. Foco-me no “Agora” que é o único lugar onde o caos não entra. Enquanto as mãos lidam com o fogo, o meu centro mantém-se estável. Recuso que o ritmo de fora interfira comigo.


    Saí do incêndio e bancada continuava lá, à minha espera. Intacta.

    O plano original: a ordem que permitiu aguentar o fogo.
  • O dia não foi uma construção

    O dia não foi uma construção; foi uma demolição controlada por ordens externas. A consciência, que exige lentidão para ser habitada, foi expulsa pela urgência dos postos.
    O que resta, neste cigarro ao fim do turno, é a tentativa de colar os cacos de uma perceção que hoje foi obrigada a ser fragmento.

  • Vencendo o torpor tecnológico

    Não preparo apenas comida; participo num processo de formação — uma paideia de sentidos que responde à complexidade do mundo. Cada ingrediente trabalhado com rigor exige uma atenção profunda, uma escuta da matéria que me impede de cair no torpor tecnológico. Ao contrário da entrega passiva às lógicas digitais, o meu agir na cozinha é uma forma de me manter como sujeito da minha própria experiência existencial. Ao formar o prato, formo-me a mim mesmo: recupero a capacidade de ser o compositor da minha própria história.