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Reflexões, ficção e outras narrativas



Investigar é uma forma de permanecer.

Categoria: Sementes

  • O Estalido Dourado


    Na bancada ordenada, o cansaço esbate a vista.
    Resta a carícia à casca, de um dourado brilhante e tenso. Posso ouvir o estalido da cebola que se quebra: um som nítido, de ouro vivo, que precede a carne branca e húmida do bolbo. A mão que pensa também ouve.

  • A resistência é compasso

    O cansaço provoca o desgaste da percepção; o momento em que a ferramenta deixa de ser corpo e volta a ser metal. É o ruído que ameaça a unidade.

    A resposta é bruta: o café e o tabaco para mascarar a falha, e o excesso de intervalos que, na tentativa de recuperar o fôlego, acabam por quebrar o ritmo. Viver aos soluços.

    A resistência não é força, é compasso. É o rito que sustenta o gesto quando a vontade se fragmenta. Menos esforço bruto, mais método.

    O metal pesa,
    O ritmo é âncora,
    O gesto liberta.

  • O Centro no Fogo


    A bancada era ordem: o vermelho da carne, o brilho do aço, o plano traçado. Depois, o grito dos “quentes”. Saí à pressa da minha secção, os utensílios fora do lugar. Mas a realidade não espera pelo rigor. Nos fogões, o tempo golpeia. Aguentar a pressão não é apenas fazer o trabalho; é impedir que o pânico desmonte o que sou. Foco-me no “Agora” que é o único lugar onde o caos não entra. Enquanto as mãos lidam com o fogo, o meu centro mantém-se estável. Recuso que o ritmo de fora interfira comigo.


    Saí do incêndio e bancada continuava lá, à minha espera. Intacta.

    O plano original: a ordem que permitiu aguentar o fogo.