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Tag: epopeia

  • As Viagens de Ulisses e Eneias

    Ulisses (Odusseus) e Eneias são dois heróis da Antiguidade Clássica. Eles são os protagonistas das epopeias que levam seus nomes, respectivamente a Odisseia e a Eneida. Estas narram os acontecimentos míticos que se seguiram à Guerra de Tróia. Relatam as viagens marítimas que cada um realizou. Na Odisseia, o grego Ulisses retoma a casa, demorando dez anos a chegar a Ítaca, sua terra natal. Na Eneida, a travessia levará Eneias e os seus companheiros até à Península Itálica, onde fundam uma nova pátria, dando origem a Roma e ao seu Império.

    A Odisseia é atribuída a Homero. Embora tenha sido fixada por escrito em finais do século VIII a.c., ela terá sido elaborada ao longo de séculos de tradição oral. Situada na sequência da Ilíada, esta epopeia narra as aventuras de Ulisses que, na sua viagem de regresso ao lar, enfrenta inúmeros perigos e ameaças, tendo que lutar pela própria vida. Ele é uma figura que sofre e que luta pela sobrevivência, mas que saboreia os prazeres da aventura. É o homem dos mil expedientes, corajoso e valente, de espírito aberto e curioso, que tudo quer experimentar. É com astúcia e inteligência que Ulisses ultrapassa as dificuldades e os obstáculos que encontra. Para todas as situações, ele consegue encontrar uma solução. Por fim, ele consegue recuperar a paz e reencontrar a harmonia do lar.

    Ulisses. Fonte: wikimedia

    A acção desta epopeia está repartida em três tempos principais:
       1) Situação de Penélope e Telémaco, em Ítaca. Desconhece-se o paradeiro de Ulisses que não retornara a casa depois do fim da guerra. Considerando-o morto, vários pretendentes assediam a sua mulher Penélope, para que ela escolha novo marido. Seu filho Telémaco parte em busca de notícias sobre o pai. Entretanto, retido na ilha da ninfa Calipso, Ulisses chora pelo regresso a casa. Após ser libertado, por ordens dos deuses, faz-se ao mar numa jangada, mas naufraga, devido a uma tempestade enviada por Poséidon;
       2) Chegada de Ulisses ao país dos Feaces. Estes acolhem-no bem e o protagonista, a pedido do rei Alcínoo, narra as várias aventuras, perigos e dificuldades, que conseguiu ultrapassar graças à sua inteligência e astúcia;
       3) Regresso de Ulisses a Ítaca. Penélope, desconhecendo o seu paradeiro, continua a esperar por ele. Ela inventa mil estratagemas para protelar a escolha de um pretendente a marido. Entretanto Ulisses encontra-se com Telémaco e ambos preparam um plano de vingança. O herói vinga-se dos pretendentes que o maltratam, matando-os, com a ajuda do porqueiro Eumeu e de Telémaco. É finalmente reconhecido por Penélope e recupera o domínio do palácio. As aventuras de Ulisses, na superação desesperada dos perigos e ameaças que lhe surgem, na luta pela sobrevivência, tornaram-se a matriz de inúmeras narrativas posteriores, tanto na literatura como no cinema.

    Tal é o caso da Eneida, a mítica aventura dos heróis que fundaram o berço de Roma e seu Império. Conhecemos a sua origem: este poema épico foi escrito por Públio Vergílio Marão, entre os anos de 29 e 19 a.c. Ao escrever esta epopeia, Vergílio inspirou-se em Homero, tentando superá-lo (aemolatio). Ele empenhou-se em fazer da Eneida o poema mais perfeito de todos os tempos. Ora, “a imitação de um modelo era na Antiguidade Clássica o processo canónico para a produção literária” (Cerqueira 10). A poesia épica tinha como modelo os poemas homéricos: a Ilíada, poema de guerra, e a Odisseia, poema de viagem. Vergílio, imitando esse modelo, dividiu a Eneida em duas partes que correspondem às duas epopeias homéricas: “A primeira parte (I-VI) segue o ritmo da Odisseia, o da viagem; na segunda parte (VII-XII) sobressai o ambiente da Ilíada, as guerras, as horríveis guerras e as proezas dos heróis” (Centeno 247). Para além da estrutura do poema, Vergílio pôde ainda contar com outras técnicas consagradas na epopeia homérica: início in media res, discursos dos heróis, deuses e profecias, descrições das armas e dos combates, etc.

    Eneias Salvando seu Pai Anquises do Incêndio de Tróia. Pintura a óleo de António Manuel da Fonseca (1796 – 1890). Fonte: wikimedia

    A Eneida dá continuidade à Ilíada de Homero: o tempo da diegese, ou seja, dos acontecimentos narrados, ocorre imediatamente após a queda da cidade de Tróia. Se a Odisseia narra as aventuras de um grego, Ulisses, que tenta voltar para o seu lar, a Eneida narra as aventuras de um troiano que, depois da destruição da cidade de Tróia, foge com alguns companheiros, em demanda por um lugar no mundo. Eles são liderados por Eneias, na sua luta pelo direito a habitar a terra. Eneias procura um sítio para fundar uma nova cidade.

    Na primeira parte da narrativa, o herói naufraga ao largo de Cartago. Ele encontra a rainha Dido e narra-lhe as suas aventuras. Conta-lhe o episódio do Cavalo de Tróia, como conseguiu escapar da cidade a ferro e fogo, e as peripécias para chegar à Península Itálica, até aportar em Cartago. A rainha apaixona-se por Eneias, mas acaba por se suicidar quando este decide partir. Eneias consulta uma sacerdotisa de Apolo, obtendo permissão para descer ao mundo dos mortos.

    Na segunda parte da narrativa, os troianos batalham pela conquista de território. Eneias chega finalmente a Itália, onde é recebido por Latino, rei do Lácio. Mas Turno, rei dos Rótulos, é instigado por Juno, a guerrear contra Eneias. Palante, filho de Evandro, parte para a guerra com Eneias. A pedido de Vénus, Vulcano forja o escudo do herói. O troiano aparece como vencedor da batalha do Áccio. Turno aproveita a ausência de Eneias para assaltar o acampamento troiano mas dá-se uma batalha sangrenta quando o herói regressa. Palante morre. No final, Turno desafia Eneias para um combate singular. Acaba morto e Eneias sai vencedor.

    Na Eneida, a acção dos troianos é determinada por uma pátria futura, por uma missão que os transcende. “Dos seus infortúnios e combates, que cumprem o que está determinado pelos Fados, nascerá uma estirpe troiana em Itália, origem mítica de Roma e da sua grandeza” (Cerqueira 9).

    Bibliografia:

    • Centeno, Rui (Coord.). Civilizações Clássicas II: Roma. Lisboa: Universidade Aberta, 1997
    • Ferreira, José Ribeiro. Civilizações Clássicas I: Grécia. Lisboa: Universidade Aberta, 1996
    • Vergílio. Eneida. Trad. de Luis Manuel Gaspar Cerqueira. Lisboa: Bertrand Editora, 2003
  • Epopeia, uma introdução

    A epopeia é a mais antiga das manifestações literárias. Trata-se de um poema narrativo de grandes dimensões que celebra uma acção grandiosa protagonizada por um herói com qualidades excepcionais. Embora a epopeia tenha fundamentos históricos, ela não apresenta os acontecimentos com fidelidade. Ela relata os acontecimentos revestindo-os com conceitos morais e actos exemplares, funcionando como modelo de comportamento. De acordo com o Dicionário de Literatura Portuguesa (Editorial Presença, 1996), “a literatura épica está intimamente ligada a tradições remotas, concretizadas na epopeia (do grego epopoiía), género narrativo em que se contam acções heróicas e grandiosas, essencialmente baseadas num imaginário e num tempo míticos.”

    Em Poética, Aristóteles considera que a epopeia seria uma imitação de homens superiores, com palavras e ajuda do metro heróico, o mais imponente e elevado dos metros. Para ele, a narrativa épica não possui limite, nem de espaço nem de tempo. A epopeia desenvolve o seu enredo, com diversos episódios, em torno de uma acção única e completa, com princípio, meio e fim.

    Os primeiros modelos ocidentais das epopeias são os Poemas Homéricos (Ilíada e Odisseia). Para além destes, destacaram-se ainda Eneida, do poeta latino Vergílio, e Os Lusíadas, do português Luís Vaz de Camões. Ilíada desenvolve-se em torno da Guerra de Tróia e do guerreiro Aquiles. Odisseia narra as aventuras do herói Ulisses, no seu retorno a casa, Ítaca. Eneida narra a saga de Eneias e a fundação de Roma. Os Lusíadas celebram os feitos marítimos dos Portugueses.

    Resumindo, podemos afirmar que a epopeia: i) é uma narrativa extensa com um fundo histórico, mesmo se por vezes apresenta factos que não são históricos; ii) regista, sob a forma poética, as tradições e os valores de determinado povo ou grupo étnico, recorrendo por vezes a lendas e a mitos; iii) apresenta as aventuras, reais ou lendárias, de heróis que se destacaram dos demais mortais.

    Bibliografia:

    – Aristóteles. Poética. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2018
    – Machado, Álvaro (org.). Dicionário de Literatura Portuguesa. Lisboa: Editorial Presença, 1996