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Reflexões, ficção e outras narrativas



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Tag: estudos literários

  • PERIODOLOGIA – Estudo dos Períodos Literários

    A periodologia tenta compreender como se origina, organiza e transforma a literatura. Para isso, a periodologia descreve, analisa e interpreta, de forma sistemática, as continuidades e mudanças que ocorrem na literatura.
    São vários os problemas levantados pelo estudo dos períodos literários, respeitantes tanto à análise destes, quanto à sua historicidade (génese, desenvolvimento, oclusão). A análise dos fenómenos periodológicos deverá ter em conta a heterogeneidade dos espaços culturais em que estes se manifestam, e por isso atender às conexões entre a literatura e as restantes artes, bem como às outras actividades humanas. A descrição dos períodos literários, nas suas realizações e fracassos, fornece um quadro do desenvolvimento contínuo do processo da literatura. Entre outros aspectos, essa descrição deverá atender:
    • ao estudo das características e evolução do estilo;
    • ao seu sistema normativo (fundamentos críticos, princípios estéticos);
    • à definição e história do termo que o designa;
    • à relação entre as diversas literaturas dentro do mesmo período literário;
    • à relação da actividade literária com outras artes e actividades humanas;
    • à análise das obras individuais em relação ao sistema de normas do período;
    • à análise das formas ou géneros literários, dentro do quadro pedológico.
  • Geração Literária e Ideologia

    A literatura é um fenómeno histórico da sociedade humana, e a confrontação inter-geracional é um factor de dinamização do processo literário que ajuda a explicar o devir da evolução literária. Os novos autores necessitam de competir pelo seu espaço, em confronto com o poder instalado no campo literário.

    Uma geração literária refere uma colectividade, nem sempre coesa e solidária, de escritores e intelectuais com idade aproximada que, ao defrontarem-se com os mesmos problemas colectivos, apresentam preocupações estético-literárias semelhantes e convergentes. Estas preocupações projectam-se nos textos desses autores, fazendo com que a geração literária assuma lugar de relevo, por volta da mesma altura, numa determinada literatura nacional.
     
    Quando os membros de uma dada geração se associam em torno de um programa estético-literário, defendendo-o e realizando-o na prática, estamos perante um movimento literário. Normalmente um movimento tem um guia que representa os ideais e os objectivos do colectivo. Quando o grupo se organiza numa relação discipular, ou seja, quando existe um mestre cuja autoridade e magistério é acatado por discípulos, estamos perante uma escola.
     
    As transformações literárias possuem dimensão colectiva e relacionam-se com as outras transformações históricas (sociais, culturais, económicas, etc.). Tais interacções reflectem-se, sobretudo, nas opções ideológicas e temáticas que se expressam no discurso literário.
     
    O conceito de ideologia refere um sistema de ideias e juízos, que descreve e explica a situação de um colectivo, orientando-o na sua acção histórica. Assim: i) as ideologias compreendem sentidos (ideias, juízos, valores) assimiláveis pelo discurso literário; ii) as ideias organizam-se de forma sistemática e fornecem coesão ao discurso literário de determinado período; iii) o alcance colectivo do sentido ideológico favorece o aparecimento dos movimentos periodológicos; iv) a dimensão histórica das ideologias condiciona a própria historicidade (eclosão, maturação e desvanecimento) dos períodos que as representam.
    Estritamente sintonizados com as ideologias, os temas são entidades de forte implicação semântica, que podem estar presentes ao longo dos textos ou mesmo no conjunto da literatura (p.ex: o tema da morte). Eles disseminam-se no espaço e viajam no tempo, articulando-se com o devir da evolução literária e ilustrando a componente axiológica (ou seja, os valores predominantes) dos períodos literários. Em função desta articulação, alguns sentidos temáticos surgem como culturalmente oportunos e ideologicamente necessários, enquanto outros serão desvalorizados ou mesmo esquecidos.

    Contudo, embora os períodos literários se expressem numa linguagem própria, indissociável dos elementos temáticos e das ideologias que os regem, eles não devem ser concebidos como respostas lineares a injunções ideológicas. O fenómeno literário tem uma existência autónoma, pelo que a sua interacção com ideologias não corresponde a processos mecânicos de determinação e dependência. A complexidade literária torna problemática a ligação rígida de um período a ideologias únicas.


    Fontes:

    “O Conhecimento da Literatura”, de REIS, Carlos – Editora Almedina, Coimbra, 2015
    “Teoria e Metodologia Literárias”, de SILVA, Aguiar – Universidade Aberta, Lisboa, 2004

  • Modos de Discurso e Géneros Literários

    Os modos são categorias de discurso, abstractas e constantes ao longo da história, usualmente entendidas como modos lírico, narrativo ou dramático. A categorização de uma obra literária específica, histórica e concreta, aplica-se dentro dos géneros literários. Estes são grupos onde se englobam obras com características semelhantes. Os géneros literários são entidades instáveis e mutáveis: por estarem envolvidos na dinâmica da evolução histórica, eles estão sujeitos à erosão e são susceptíveis de desaparecer. Assim, dentro dos grandes modos de discurso, existem os géneros literários, onde, por sua vez, se encontram os diversos subgéneros, que são subgrupos que  acrescentam especificidades aos géneros. Estes subgéneros são particularizações, em contextos históricos e culturais, da categoria mais ampla que é o género, e, por isso, igualmente transitórios e instáveis. A categorização de uma obra literária é elástica, pelo que um determinado conteúdo pode transitar entre diferentes modalidades.
    A teoria dos géneros literários aborda os modos, os géneros e os subgéneros literários, numa continuidade histórica que teve origem na Antiguidade Clássica, com os filósofos gregos Aristóteles e Platão. Considerava-se que todas as manifestações de poesia (entendida hoje como literatura) partiam de uma “imitação”, e que aquilo que as diferenciava entre si seriam os meios, os objectos e os modos: o modo abarcava a narração e as personagens; o objecto designava a fonte de imitação, normalmente homens de carácter superior (na epopeia e na tragédia) ou inferior (na comédia); o meio corresponderia ao ritmo, à harmonia e à elocução (metro). Esta teoria definiu os géneros, organizando-os em três categorias básicas que ainda hoje se mantêm válidas: textos épicos (que narravam estórias), líricos (que abordavam os sentimentos do autor) ou dramáticos (próprios para serem representados). Este tipo de classificação tripartida assentava num critério de natureza enunciativa, de quem intervinha no texto: i) se o autor; ii) se as personagens; iii) ou se ambos, o autor e as personagens.

    A teoria clássica foi uma forma pioneira de esquematizar os géneros literários e serviu de referência para todas as classificações posteriores: obteve imenso sucesso nas estéticas renascentistas e neoclássicas, mas também sofreu alterações ao longo dos tempos, vindo a transformar-se na teoria dos géneros tal como a conhecemos hoje. Quando se impôs durante o Renascimento era normativa e prescritiva. Acreditava que cada género era diferente dos outros e que estes se deviam manter separados, numa “doutrina de pureza”. Apelava a um enredo que expressasse uma única emoção (terror ou riso), e mantinha uma diferenciação social: a épica e a tragédia versavam problemas da corte; a comédia ocupava-se da classe média; enquanto que a sátira e a farsa se referiam ao povo. Mais tarde, durante os séculos XVII e XVIII do neoclássico, uma mistura de racionalismo e autoritarismo conservou e adaptou as espécies literárias de origem antiga, especialmente as poéticas. Mas a teoria neoclássica não explicava a doutrina das espécies ou em que se baseava a sua diferenciação: ela não considerava a necessidade de um critério para tal, e apenas atendeu a certos tópicos, tais como pureza, hierarquia, duração da espécie, etc. A partir do Romantismo impôs-se uma concepção inovadora e mais livre da criação literária. E, já no século XIX da época moderna, assistiu-se a uma forte aceleração na evolução dos géneros, devido sobretudo à forma como o público passou a consumir a obra literária, quando o livro se tornou um bem cultural cada vez mais acessível, devido ao incremento industrial na sua produção e distribuição.

    Existem claras diferenças entre a teoria clássica dos géneros e a moderna teoria. Hoje em dia, considera-se que uma classificação dos textos literários depende das distintas perspectivas teóricas, pelo que não existe uma classificação única e rígida dos modos, géneros ou subgéneros literários. O género pode ser concebido como um agrupamento de obras literárias, baseado tanto na sua forma exterior (metro e estruturas especificas) como na forma interior (finalidade; sujeito e publico). Ele, o género literário, representa uma soma de processos técnicos existentes, que o escritor pode utilizar e que o leitor já compreende. Neste sentido, a teoria moderna é claramente descritiva, não limitando o numero de géneros nem prescrevendo regras aos autores. Ela admite a mistura entre espécies tradicionais e, em lugar de sublinhar a distinção entre diferentes espécies, interessa-se em descobrir qual o seu denominador comum, quais os seus processos e objectivos literários. 
    Fontes:
    “O Conhecimento da Literatura”, de REIS, Carlos – Editora Almedina, Coimbra, 2015
    “Teoria e Metodologia Literárias”, de SILVA, Aguiar – Universidade Aberta, Lisboa, 2004