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Reflexões, ficção e outras narrativas



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Tag: feminismo

  • O Corpo é um Arquivo Fluido

    Trauma, Corpo e a Estética do Fracasso em A Cronologia da Água

    I. A Recusa da Linearidade: A Memória Hidrodinâmica O filme The Chronology of Water (2025), realizado por Kristen Stewart e baseado nas memórias de Lidia Yuknavitch, estabelece desde o título uma contradição necessária: não existe “cronologia” na dor. A obra rejeita a estrutura linear do biopic tradicional, optando por uma narrativa fragmentada que mimetiza o funcionamento da memória traumática. O trauma não é um evento estanque; é um elemento (hidro)dinâmico, uma “sucessão de marés” que devolvem à protagonista fragmentos de si mesma, muitas vezes partidos e sobrepostos. Esta escolha estética traduz visualmente uma história que foi, nas palavras da própria autora (Lídia), “expelida pelo corpo”.

    II. O Corpo como Arquivo e a Escrita Corpórea O eixo central da narrativa é o conceito de “Escrita Corpórea” (Corporal Writing). Para Yuknavitch, a memória não reside apenas na mente, mas nos tecidos, fluidos e sistema nervoso. A natação surge como o rito onde o corpo faz uma síntese da realidade: debaixo de água, o passado, o presente e o futuro coexistem numa “cronologia de todos os eus”. A câmara de Stewart captura esta reação química da memória, focando-se na respiração, na tensão muscular e na crueza biológica (o parto, a perda, o toque), transformando a experiência cinematográfica num evento somático que repele o espectador desprevenido pela sua honestidade visceral.

    III. A Liturgia do Fracasso e a Autossabotagem Longe de ser uma narrativa simplista de superação, o percurso de Lidia é marcado por uma sucessão de fracassos e autossabotagens. Por exemplo, o uso desmesurado do álcool e das drogas é analisado como uma tentativa de anestesiar o arquivo sensorial da dor. Estes momentos de autodestruição não são derrotas morais, mas fragmentos de uma maré caótica onde a protagonista tenta encontrar os limites do seu próprio “eu” fragmentado. A identidade do misfit (desajustado) constrói-se precisamente na aceitação destas partes partidas e na recusa em higienizar o sofrimento para consumo público.

    IV. Conclusão: A Transmutação pelo Rito Em última análise, o filme demonstra que é possível permanecer inteiro num mundo fragmentado, não através da perfeição técnica, mas da integridade do rito. Quer seja através da natação ou da escrita rítmica e agressiva, a protagonista transmuta a “carne do trauma” em substância artística. O filme prova que a dor, quando integrada e não apenas observada, deixa de ser um naufrágio para se tornar o próprio motor da criação e da soberania existencial.


    Bibliografia Relacionada:

    Leituras que “enquadram” o filme A Cronologia da Água, de Kristen Stewart (2025)

    YUKNAVITCH, Lidia. The Chronology of Water: A Memoir.

    Porquê: É a fonte primária. Essencial para perceber como ela (Lidia Yuknavitch) descreve a água como o único lugar onde o seu corpo não estava “errado”.

    VAN DER KOLK, Bessel. O Corpo Não Esquece (The Body Keeps the Score).

    Porquê: É o livro de referência sobre como o trauma é armazenado no corpo (biologia e sistema nervoso) e não apenas na memória consciente. Apoia a tese do “corpo como arquivo”.

    BUTLER, Judith. Corpos que Importam (Bodies That Matter).

    Porquê: Butler discute como o corpo é moldado por discursos de poder e trauma. Ajuda a analisar a “autossabotagem” da Lidia como uma forma de resistência ou de lidar com um corpo que foi “marcado” pelo abuso.

    DIDI-HUBERMAN, Georges. A Imagem Sobrevivente.

    Porquê: Este autor de História da Arte discute como as imagens e memórias “sobrevivem” e reaparecem de forma anacrónica (fora do tempo). Justifica a estrutura não-linear do filme e os seus “saltos temporais”.

  • O Sangue Negro de Noémia de Sousa

    Noémia de Sousa

    Noémia de Sousa (1926 – 2002)

    O universo literário de expressão feminina em Moçambique começou com a poesia de Noémia de Sousa a meio do século XX. A sua voz, ao protestar contra as opressões sofridas pelas mulheres moçambicanas, representa a resistência da mulher africana e dos povos de África.

    Poema: Sangue Negro
    
    Ó minha África misteriosa e natural,
    minha virgem violentada,
    minha Mãe!
    
    Como eu andava há tanto desterrada,
    de ti alheada
    distante e egocêntrica
    por estas ruas da cidade!
    engravidadas de estrangeiros
    
    Minha Mãe, perdoa!
    
    Como se eu pudesse viver assim,
    desta maneira, eternamente,
    ignorando a carícia fraternamente
    morna do teu luar
    (meu princípio e meu fim)...
    Como se não existisse para além
    dos cinemas e dos cafés, a ansiedade
    dos teus horizontes estranhos, por desvendar...
    Como se teus matos cacimbados
    não cantassem em surdina a sua liberdade,
    as aves mais belas, cujos nomes são mistérios ainda fechados! 
    
    Como se teus filhos – régias estátuas sem par –,
    altivos, em bronze talhados,
    endurecido no lume infernal
    do teu sol causticante, tropical,
    como se teus filhos intemeratos, sobretudo lutando,
    à terra amarrados,
    como escravos, trabalhando,
    amando, cantando –
    meus irmãos não fossem!
    
    Ó minha Mãe África, ngoma pagã,
    escrava sensual,
    mística, sortílega – perdoa!
    
    À tua filha tresvairada,
    abre-te e perdoa!
    
    Que a força da tua seiva vence tudo!
    E nada mais foi preciso, que o feitiço ímpar
    dos teus tantãs de guerra chamando,
    dundundundundun – tãtã – dundundundun – tãtã
    nada mais que a loucura elementar
    dos teus batuques bárbaros, terrivelmente belos... 
    
    para que eu vibrasse
    para que eu gritasse,
    para que eu sentisse, funda, no sangue, a tua voz, Mãe!
    
    E vencida, reconhecesse os nossos elos...
    e regressasse à minha origem milenar.
    Mãe, minha Mãe África
    das canções escravas ao luar,
    não posso, não posso repudiar
    o sangue negro, o sangue bárbaro que me legaste...
    Porque em mim, em minha alma, em meus nervos,
    ele é mais forte que tudo,
    eu vivo, eu sofro, eu rio através dele, Mãe!
    
    - Noémia de Sousa, no livro "Sangue negro". Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001, p. 141-142.

    A ‘mãe dos poetas moçambicanos’ nasceu perto do Oceano Índico, em Catembe, Moçambique, a 20 de Setembro de 1926. Aos seis anos de idade mudou-se com a família para Lourenço Marques, actual Maputo. Após o falecimento do pai, em 1932, Noémia de Sousa teve que trabalhar para ajudar a mãe a sustentar os seus 5 irmãos. De noite, começou a estudar no curso pós-laboral de comércio, onde era a única aluna negra da Escola Técnica. Por essa altura, publicou seu primeiro poema – Canção fraterna – no Jornal da Mocidade Portuguesa. Em 1951, encerrou a sua carreira de poetisa e rumou a Lisboa. Em 1962, casou-se com o poeta Gualter Soares, com quem teve uma filha. Por volta de 1964, fugiu da ditadura em Portugal em direcção a Paris. Regressou a Lisboa em 1975, onde trabalhou como jornalista. Faleceu em Cascais, Portugal, a 4 de Dezembro de 2002.

    Através da sua poesia, Noémia de Sousa assumiu o papel de porta-voz do povo moçambicano e questionou os problemas culturais, sociais e políticos de seu país. Recorrendo aos versos livres, com adjectivação e exclamação abundante, a sua linguagem apresenta um carácter intimista de forte emotividade, com traços narrativos e elementos nostálgicos. Prevalece, na crítica sociopolítica, uma voz feminina que afirma a negritude e exalta a cultura africana. É uma poesia acusatória e com forte impacto social que denuncia e protesta contra o longo período de dominação pelos colonizadores portugueses. Ela fala-nos de injustiça e opressão mas também de esperança, a esperança de um futuro melhor em liberdade.

    Poema: Um dia
    
    Um dia
    Quando este nosso sol ardente de África
    nos cobrir a todos com a benção do mesmo
    calor,
    quero ir contigo, amigo,
    de mãos dadas, deslumbrados,
    pelos trilhos abertos da nossa terra
    estranha,
    adubada com sangue e suor de séculos...
    
    Nas machambas,
    o ruído repercutido de tractor
    soará como uma canção de triunfo.
    Nas matas,
    as tutas já não serão aves apenas
    e no centro da vida,
    nosso irmão negro, quebradas as grilhetas,
    celebrará seu segundo nascimento
    num batuque diferente de todos os outros...
    
    Uma luz clara e doce se abrirá para todo
    e nós iremos de mãos dadas, amigo,
    pelos trilhos verdes de Moçambique.
    Na noite,
    não mais soluçarão, estertoradas,
    canções marimbadas por irmãos
    naufragados
    (ô mamanô! Ô tatanô!),
    Não mais a acusação muda dos olhos
    precoces
    de crianças de ventres empinados
    não mais jaulas erguidas para os
    inconformistas
    gritando gritos de sangue
    através de tudo!
    
    Não mais, noite...
    E nós iremos de mãos dadas,
    amigo,
    pelos trilhos abertos de Moçambique,
    mergulhados no clarão eterno do dia
    infindável.
    
    - Noémia de Sousa, no livro "Sangue negro". Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001, p. 114-115.

    A obra de Noémia de Sousa está dispersa por muitos jornais e revistas. Seus textos poéticos ficaram famosos ao serem divulgados em diversas publicações de antologias de poesia moçambicana. Apesar de ter influenciado várias gerações de poetas apenas viu um livro editado: Sangue Negro, que foi publicado em 2001, pela Associação dos Escritores Moçambicanos, como uma homenagem pelos 75 anos da escritora. Este livro reúne os 46 poemas escritos por Noémia de Sousa entre 1949 e 1951. Dez anos mais tarde, em 2011, a editora moçambicana Marimbique publicou uma nova edição de Sangue Negro. Em 2016, a editora Kapulana publicou o primeira edição brasileira do livro, que pode ser encontrado aqui. Em 2023, o seu livro ainda não fora publicado em Portugal.