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Reflexões, ficção e outras narrativas



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Tag: filosofia

  • O método Deep Cooking

    A cozinha, para além da nutrição ou do entretenimento, pode ser uma ferramenta de coesão psíquica. Num mundo dominado pela fragmentação e pela “Sociedade do Cansaço“, o Deep Cooking surge como um sistema operativo de resistência — uma tentativa de ler o território e o corpo através da disciplina do ofício culinário.

    I. O Manifesto: Por uma Gastronomia da Presença


    O Deep Cooking define-se como uma intervenção ontológica, onde o prato é um território a ser libertado. Rege-se por cinco pilares:

    • A Cozinha como Acto de Pensamento: O prato é o “Acontecimento” filosófico.
    • O Silêncio é um Ingrediente: Recusa absoluta da fragmentação digital.
    • A Estética da Verdade: A busca pela obra de arte total  (Gesamtkunstwerk), entre a beleza e a crueza.
    • O Rigor do Artífice: A mestria como fruto da repetição consciente.
    • O Desegoísmo (Unselfing): O ato de alimentar como uma saída de si mesmo.

    II. A Equação e o Pilar Shokunin

    A operacionalização deste pensamento faz-se através de uma fórmula:

    Deep Cooking = (Mise en place técnica) + (Atenção Plena) - (Ruído Digital)

    Este equilíbrio é sustentado pela Atitude Shokunin: o artífice que procura a melhoria constante (Kaizen) através da repetição exaustiva. O Shokunin dedica-se ao aperfeiçoamento do seu ofício para servir a comunidade de forma desinteressada, transformando o rigor do serviço na sua maior expressão de cidadania.

    III. O Protocolo P.A.R.T.E.


    O sistema operativo que ancora o corpo e a mente ao gesto:

    • P — Preparação (O Silêncio da Mente): Organização mental e emocional. Desconexão digital, paisagem sonora (por exemplo: Brian Eno ou Arvo Pärt) e Pranayama para centrar a intenção.
    • A — Arrumar (A Mise en Place Ontológica): Geometria das ferramentas com precisão de xadrez e 30 segundos de observação silenciosa da matéria bruta (“A primeira verdade”).
    • R — Ritual (A Execução em Flow): Regra do gesto único e economia de movimento. O erro é encarado como metamorfose estética (veja-se o pintor Francis Bacon).
    • T — Teste (O Acontecimento): A técnica torna-se linguagem. Inclui a Prova Cega para purificar o paladar e o Empratamento Teatral.
    • E — Entrega (A Colheita Intelectual): Limpeza meditativa como parte da obra e escrita imediata de três frases que sintetizam a humanidade da matéria trabalhada. Acto de partilha final.

    IV. Menu-Manifesto: “Menu da Carne e do Verbo”


    Exemplo de narrativa em quatro actos, desenhada para a Anatomia da Razão Estética:

    • Acto I: O Grito Visceral (Fígado, sangue e beterraba – Estética do Abjeto).
    • Acto II: A Transmutação (Texturas de Cebola – Metafísica do Ofício).
    • Acto III: A Celebração (Pão, manteiga e território – Geometria da Partilha).
    • Acto IV: O Epílogo (Infusão transparente – O Vazio e a Contemplação).

    V. Conclusão

    O prato é um território ocupado; cozinhar é o acto de libertá-lo.

    Cozinhar não é apenas técnica ou nutrição; é uma forma de filosofia aplicada. O método Deep Cooking propõe uma subtração necessária: retirar o ruído digital para que a atenção plena e o mise en place permitam a libertação do território que é o prato.

  • Aspectos da Hipermodernidade

    Hipermodernidade é o termo utilizado pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky para referir o estágio actual da sociedade humana. Este período é caracterizado por uma cultura de excesso. Na senda do modernismo, tudo é exagerado e levado ao extremo. Integra-se o passado numa nova lógica de mercado, de grande consumo, de avanço tecnológico e de individualização exacerbada. Trata-se de um liberalismo globalizado, de uma mercantilização da técnica e dos modos de vida, de um individualismo extremo.


    O hipercapitalismo refere um mercado global cujas regras liberais se estendem a todos os continentes do planeta. Os grandes fluxos financeiros redesenham o mercado e o capital dos grandes fundos concentram-se na especulação. As fronteiras passaram a permitir a troca de bens e serviços de uma forma mais livre e flexível. As empresas internacionalizaram-se e esforçam-se por satisfazer a demanda maciça dos clientes. Elas lutam por quotas de mercado contra uma concorrência cada vez mais eficiente e poderosa. As cadeias de produção e distribuição também se modificaram, com as fábricas a relocalizarem-se em países onde a mão-de-obra é mais barata e com os produtos a atravessarem o mundo inteiro para chegar ao cliente final.


    O culto da felicidade tornou-se central no hiperconsumismo. As sociedades actuais organizam-se com vista a criar um quotidiano mais confortável e fácil, o que é sinónimo de felicidade. A sociedade de consumo procura esta felicidade através da aquisição de bens, de serviços e de informação. Para responder a tal demanda, as campanhas de marketing e publicidade impregnam-se com mensagens que estimulam sensações de felicidade. Por outro lado, neste novo mercado global, os consumidores são cada vez mais informados e exigentes, querendo a satisfação imediata de produtos personalizados. Com o recurso das novas tecnologias de comunicação,
    compram, por impulso, as últimas novidades das marcas de luxo. A cultura de busca do prazer imediato participa na promoção e manutenção do hiperconsumismo.

    A sociedade de consumo promove o isolamento social e acarreta sérios problemas de alienação, como sejam a ansiedade, a depressão ou o suicídio. Enclausurados pelas novas tecnologias da informação, os seres humanos fecham-se num casulo. Acresce que o homem contemporâneo participa de uma
    competição constante, transpondo para a sua vida quotidiana as mesmas leis do mercado; vive em função do seu desempenho, da sua produtividade ou do seu nível financeiro. Enquanto isso, as referências colectivas evaporaram-se sucessivamente. Assistimos a um hiperindividualismo, numa sociedade praticamente desprovida de valores morais. Os indivíduos mobilizam-se em torno dos seus interesses pessoais e não mais em função das grandes ideologias, sejam religiosas, políticas ou outras. Estas perderam a sua força de outrora. No entanto, embora estas ideologias tenham colapsado, surgiram novos
    discursos que o consumidor valoriza: primeiro, os direitos dos homens, depois, a ideologia médica (a saúde) e, finalmente, as questões ambientais e ecológicas.


    A hipertecnologia encarna a fascinação e a força da novidade. Podemos constatar que a técnica invadiu todos os domínios da vida humana. Impôs-se como cultura global trazendo uma nova maneira de ser, de pensar e de viver. A técnica apoderou-se dos seres vivos, tornou-se omnipresente, tentacular e ilimitada. Esta loucura tecno-mercantil provoca um produtivismo frenético e um
    desperdício enorme. A tecnologia, associada ao liberalismo económico, resulta numa mercantilização ilimitada e num desperdício desmesurado. Esgota os recursos naturais, provoca alterações climatéricas e tem impacto negativo na saúde pública.


    Assim, a hipermodernidade pressupõe estas quatro dimensões: o hipercapitalismo, o hiperconsumismo, a hiperindividualização e a hipertecnologia. A sociedade contemporânea transformou-se num mercado global. Os indivíduos tornaram-se numa rede de consumidores ansiosos pela última novidade. Com excesso de informação, o homem contemporâneo, assume os valores e princípios mercantis. Em constante competição, individualiza-se e isola-se numa espiral de alienação, frustração e depressão. A tecnologia instala-se e modifica todos os aspectos de vida comum e do planeta, com impactos acentuados na qualidade de vida dos seres humanos e degradação da biosfera.

  • Breve introdução à ética

    Ética é o ramo da filosofia que reflecte sobre a natureza do bem e do mal, sobre os valores que distinguem uma atitude correcta de outra errada, sobre qual a forma moralmente adequada de agir. Sabemos que os seres humanos agem motivados por razões pessoais, tendo em vista os seus próprios fins. Mas podemos considerar a felicidade como aquele bem último que todos os seres humanos almejam alcançar. Reconhecendo que o seu significado varia de pessoa para pessoa, cabe aos filósofos determinar a natureza dessa felicidade.

    Embora rejeitando certas concepções de felicidade (vidas dedicadas à obtenção de riqueza, honras ou prazer físico), Aristóteles afirma que “a felicidade é o mais extremo dos bens que a acção humana procura obter.” (Aristóteles 1095) Para o Estagirita, felicidade é ter uma vida que manifeste aquelas características que nos distinguem como seres humanos; levar um género de vida que, submetendo as paixões à razão, exprima a nossa própria essência. Neste sentido, o nosso impulso para a felicidade deve ser conduzido por uma conduta virtuosa. Para Aristóteles, uma vida feliz será uma vida excelente, virtuosamente vivida.

    Para Immanuel Kant, a felicidade e o prazer referem-se aos sentidos e não têm valor moral. Na sua perspectiva, as acções humanas devem ser orientadas por um conteúdo moral, praticadas por dever. “Uma acção practicada por dever tem o seu valor moral, não no propósito que com ela se quer atingir, mas na máxima que a determina […]” (Kant 30). Numa máxima, o conteúdo moral exige que as acções sejam practicadas por dever. O indivíduo não deve ser motivado por inclinação imediata ou interesse pessoal, mas agir por respeito à lei moral. Por isso, Kant traça o imperativo categórico, um imperativo único do qual podem derivar todos os imperativos do dever: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.” (Kant 59)

            John Mill, ao contrário de Kant, sustenta que não só a felicidade tem um valor moral, como é o objectivo último para o qual se dirigem todas as acções humanas. Ele entende esta felicidade como “o prazer, e a ausência de dor,[…] as únicas coisas desejáveis como fins” (Mill 51). No entanto, não é a quantidade de prazer, mas a sua qualidade, que é relevante e decisiva. Mill valoriza os prazeres superiores (do intelecto, da imaginação, dos sentimentos morais) em detrimento dos prazeres inferiores (ligados às necessidades físicas, como comer, beber, sexo). Insiste, ainda, que se deve considerar o bem-estar de todos e não apenas o de uma única pessoa. Moralmente, as acções serão tanto mais correctas quanto permitam a maior felicidade para o maior número de pessoas.

    Temos, assim, três diferentes perspectivas éticas: i) a visão de Aristóteles, uma ética de virtudes, baseada naquilo que uma pessoa humana deve ser; ii) a ética Kantiana, baseada em deveres morais, em regras que devemos obedecer; iii) e o utilitarismo de Mill, uma ética baseada em resultados, que pretende «maximizar a felicidade para a maioria das pessoas».

    BIBLIOGRAFIA:

    ·        Aristóteles. Ética a Nicómaco. Trad. António Castro Caeiro. Lisboa: Quetzal, 2004.

    ·       Kant, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.

    ·  Mill, John Stuart. Utilitarismo. Revisão científica, introdução e notas de Pedro Madeira. Lisboa: Gradiva, 2005.