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Reflexões, ficção e outras narrativas



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Tag: literatura

  • Sim, Quixote, são gigantes.

    Para uma caracterização de Dom Quixote e Sancho Pança.

    1- El ingenioso hidalgo Don Quixote de La Mancha: A Invenção do Sujeito no Alambique de Cervantes

    Com a publicação da primeira parte de D. Quixote de La Mancha, em 1605, Miguel de Cervantes não inaugurou apenas o romance moderno; erigiu uma das figuras cimeiras do Cânone Ocidental. No crepúsculo de um mundo onde as certezas teológicas começavam a ser refutadas pelos descobrimentos e pela ciência, Alonso Quijano surge como o protótipo do homem que se reinventa. Num universo aparentemente abandonado por Deus, este fidalgo de La Mancha recusa o determinismo social e familiar para abraçar uma existência moldada como obra de arte.

    A génese desta transformação reside na leitura obsessiva. Quijano, “enlouquecido por muito ler e pouco dormir”, transmuta-se em D. Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura, remediando a sua realidade prosaica através dos códigos da cavalaria medieval. Ao renomear-se a si próprio, ao seu cavalo Rocinante e à camponesa Aldonza Lorenzo — doravante Dulcineia do Toboso —, o protagonista inicia uma exploração épica onde a vida passa a imitar a arte.

    “He , not an author , names himself , his horse , and his lady . His is a life that will be shaped like a work of art . Life will imitate art. … So in this world abandoned by God man creates himself , Don Quixote creates himself .” (Echevarría 31)

    Acompanhado pelo rústico Sancho Pança, a quem cativa com a promessa da governação de uma ilha, Quixote percorre as planícies poeirentas de Espanha numa demanda para “corrigir o mundo”. A narrativa estrutura-se frequentemente num ciclo quadripartido de percepção, discórdia, acção e diálogo — como se observa no icónico episódio dos moinhos de vento, transfigurados em gigantes pela lente do idealismo quixotesco.

    Ao longo de duas partes (1605 e 1615), a obra confronta da fantasia contra a realidade cruel. Dos rebanhos tomados por exércitos às partidas pregadas por duques em Barcelona, a jornada de Quixote e Sancho revela-se um processo de descoberta mútua. Mesmo no leito de morte, após renunciar aos romances de cavalaria e regressar a uma sanidade melancólica, o rasto deixado pelo Cavaleiro e pelo seu Escudeiro permanece como o testemunho da luta do indivíduo por transformar o seu lugar no mundo através da vontade e da imaginação.

    2 – Características de Dom Quixote

      

    Estátua de Dom Quixote em Madrid, simbolizando o cavaleiro idealista que luta contra moinhos de vento.

    D. Quixote é um velho fidalgo de La Mancha, solteiro, “rijo de têmpera, seco de carnes, rosto esfalcado, grande madrugador e amigo de montear.” (Cervantes, 2018, 27) Ele é um leitor compulsivo, obcecado pela literatura popular da sua época. Reflete constantemente sobre os ideais da cavalaria andante, defendendo a sua importância e a sua relevância no mundo moderno. As suas principais virtudes são a coragem moral, a generosidade e a bondade.

        A linguagem utilizada por D. Quixote é elevada e fortemente influenciada pelos livros de cavalaria que tanto leu. Ele utiliza vocábulos arcaicos e uma sintaxe elaborada, imitando o estilo das narrativas sobre cavaleiros andantes. Recorre frequentemente a linguagem figurativa e metáforas retiradas deste universo para descrever o mundo à sua volta, o que muitas vezes resulta em interpretações fantasiosas da realidade.

        Quixote é um idealista atormentado que procura a justiça humana. Ele decide tornar-se cavaleiro andante, embarcando numa jornada para “desfazer agravos, reparar injustiças, emendar sem-razões, reprimir abusos, obrigar os maus a saldar seus tormentos.”(Cervantes, 2018, 32) Inventa um novo nome para si próprio e reveste-se com uma armadura inadequada e improvisada, símbolos da forma como adapta a realidade aos seus desejos. Deixa a sua aldeia e parte em aventura, pois apenas no exílio pode ser livre.

    Para o Cavaleiro da Triste Figura a realidade é um estado de fluxo: “things may appear to be something now and be something different a moment later .” (Echevarría 45) Ele é um personagem complexo, lúcido mas bastante imaginativo. Enquanto sustenta o mundo que fantasia, ele tanto se apresenta com grave seriedade como com uma comicidade tremenda. D. Quixote é um fidalgo de La Mancha que enlouqueceu após ler excessivamente romances de cavalaria. A sua loucura é uma loucura literária, tal como a sua geneologia: ele é os livros que leu. A sua transformação em cavaleiro é impulsionada pela sua crença numa realidade inventada, baseada nas suas leituras, onde moinhos de vento são gigantes e estalagens são castelos. Ele vê o que vemos, mas vê também alguma coisa mais.

        D. Quixote, enlouqueceu por muito ler e pouco dormir. A sua transformação em cavaleiro resulta da sua crença numa realidade inventada, onde moinhos de vento são gigantes e estalagens são castelos. Ele vê o que vemos, mas vê também alguma coisa mais. A sua loucura “é deliberada, auto-infligida, uma estratégia poética tradicional.” (Bloom, 2008, 84) A sua loucura é uma “loucura literária”. Segundo Harold Bloom (1995, 132), D. Quixote não é louco nem parvo, antes alguém que “brinca” (representa) ser cavaleiro andante. Esta representação, esta brincadeira, este jogo, é uma atividade voluntária, ao contrário da loucura. Como coloca o crítico, “His madness, as he makes clear, is a poetic strategy worked out by others before him, and he is nothing if not a traditionalist.” (Bloom, 1995, 135)

        D. Quixote procura a honra e a imortalidade através das suas aventuras, seguindo o exemplo dos seus heróis literários. Ele acredita que as suas façanhas serão lembradas para sempre, que obterá a fama eterna. Pelo caminho, as suas ações, praticadas sob um estrito código de honra, frequentemente resultam em situações desastrosas. “O atribulado Cavaleiro é mais do que um enigma: procura um nome imorredouro, a imortalidade literária, e encontra de facto o que procura (…)” (Bloom, 2008, 84)

    Assim, podemos entender D. Quixote como um herói e não como um louco. Ele apresenta as qualidades dos cavaleiros medievais lendários (as virtudes de generosidade, cortesia, cavalheirismo, castidade e piedade). Ele reflete, frequentemente, sobre os ideais da cavalaria andante, defendendo a sua importância e relevância no mundo moderno. Neste mundo e não noutro por vir. Insatisfeito com a realidade em que vive, luta por a conciliar com os seus desejos e ideais. Não se trata de uma luta de proporções cósmicas, entre deuses e heróis super-humanos, mas da luta quotidiana de um indivíduo por transformar o seu lugar em algo melhor. Ele é um exemplo de coragem moral e resiliência. Ele enfrenta com vontade desmesurada os seus demónios privados, sem se deixar abater nem por obstáculos nem por fracassos, num processo de descoberta de si próprio e do mundo que habita.  Ele é um exemplo de coragem, que, como sublinha Harold Bloom (1995, 131), ultrapassa a de qualquer herói da literatura ocidental. D. Quixote é derrubado por realidades que são maiores do que ele. Mas quer vencer: não importa por quantas vezes é derrotado, ele persiste contra todos os obstáculos. Podemos vê-lo como um herói e não como um louco. Um herói que é um poeta de ação, um ator que procura manter vivo o idealismo. (Bloom, 1995, 138)E, onde outros vêm moinhos, ele vê gigantes.

      “The Don lifts himself into ideal place and time and is faithful to his own freedom, to its disinterestedness and seclusion, and to its limits, until at least he is defeated, abandons the game, returns to Christian “sanity”, and so dies.” ( Bloom, 1995, 132)

    3 – Características de Sancho Pança

    Sancho Pança é um lavrador, vizinho de Dom Quixote, que se junta a este como seu escudeiro. Ele é um pobre camponês, persuadido a acompanhar o fidalgo em troca da governança de uma ilha que o cavaleiro irá conquistar para ele. Esta ilha é a frequente motivação do escudeiro. Mas o seu desejo é ter a fama de ser governador, não tanto a riqueza que daí advém. Tal como Quixote, Sancho procura um novo ego. (Bloom, 1995, 134)

              A linguagem utilizada por Sancho Pança é simples e direta, coloquial. A sua forma de falar é despretensiosa, descrevendo a realidade de forma simples, o que contrasta com a linguagem mais arcaica e elevada de D. Quixote. A linguagem utilizada pelo escudeiro realça a sua origem humilde e a sua visão do mundo. Ele preocupa-se com as necessidades básicas, como comida e descanso, e a sua linguagem reflete essa atenção ao mundo material. Sancho utiliza uma linguagem terrena e popular, que é eminentemente prática.

    Embora menos elaborada que a de Dom Quixote, a linguagem de Sancho também recorre a expressões vívidas e figurativas, mas estas são retiradas do mundo popular e da experiência do quotidiano. Ele utiliza comparações simples e metáforas acessíveis para descrever as suas experiências e observações. A sua linguagem está repleta de sabedoria e expressões populares, utilizando constantemente provérbios, ditados e expressões do senso comum. Estas frases, curtas e carregadas de sabedoria popular, servem para comentar as mais variadas situações, oferecer conselhos práticos ou expressar a sua visão terrena do mundo. Elas não só enriquecem o seu discurso como revelam a sua inteligência prática e a sua ligação à cultura popular.

    Para além disso, a linguagem de Sancho é frequentemente marcada pelo humor e pela ironia, muitas vezes dirigidos às fantasias de seu amo. Ele produz, amiúde, comentários sarcásticos, não hesitando em expressar o seu ceticismo e a sua visão realista sobre as aventuras em que vai participando.

    Apesar de inicialmente ser motivado pela promessa de uma recompensa (a ilha para governar), Sancho parece desenvolver uma amizade e lealdade genuínas por D. Quixote. Acompanha-o nas múltiplas aventuras e oferece um contraponto sensato às suas ilusões. Sancho é um homem simples, terreno e prático; este é uma contraposição realista à loucura de seu amo. Representa a voz da razão e do bom senso, em contraste com a visão do mundo de D. Quixote, que é idealista e fantasiosa. Tal oposição cria um diálogo dinâmico entre os dois personagens. E permite a Sancho sobreviver “porque a sua astúcia popular é muito mais forte do que o seu ilusório apego ao sonho do seu cavaleiro.”( Bloom, 2008, 93)

    Podemos entender, portanto, que a linguagem de Sancho Pança é um bom elemento para a sua caracterização. Ela representa a voz da razão, do bom senso e da sabedoria popular, em contraste com o idealismo de D. Quixote. O seu coloquialismo e humor, o uso de provérbios e ditados, a sua sabedoria prática e popular, tornam Sancho Pança uma personagem rica e identificável cuja linguagem contribui para a riqueza e profundidade da obra.

    4 – Aspectos das personagens em conjunto

    Para além das características individuais dos personagens, existem aspectos, explicitados por Harold Bloom, que podemos observar quando consideramos a dupla em conjunto. Coloco, de seguida, alguns apontamentos acerca desta perspectiva.

    Para este crítico (Bloom, 1995), os dois personagens são os maiores personagens do Cânone Ocidental, apenas comparáveis a alguns dos personagens criados por Shakespeare. (134) E a figura que o par constitui em comum é mais original que as personagens separadas (132). “A amizade entre Sancho Pança e o seu Cavaleiro ultrapassa qualquer outra na sua representação literária.” (Bloom, 2008, 80)

    Entende Bloom, em The Western Canon (132), que por debaixo da superfície da relação entre eles, existe uma intimidade igualitária. A sua relação sobressai para além das relações sociais e da representação da natureza. Sancho e Quixote estão unidos por mais do que o afeto ou respeito mútuos, eles são companheiros de uma aventura com as suas próprias regras e visão da realidade. Esta relação manifesta-se pela igualdade e por “querelas azedas”.

    As frequentes discussões entre eles demonstram o contraste entre as suas visões do mundo. E, nesta contenda, criam espaço para se desenvolverem. Ao longo da obra, eles alargam os seus pensamentos através de um debate vigoroso. Formam um par ideal pois vão-se modificando por se escutarem no diálogo que estabelecem. Eles não se isolam, não se ouvem a si próprios, antes permitem-se escutar um ao outro. Quando a obra termina tanto Sancho como Quixote sabem quem são, virtude das conversas que tiveram.

    Outro aspeto que se destaca nesta relação é o sofrimento que aflige o par, ao longo da aventura. Os tormentos físicos e mentais sofridos por Sancho e Quixote são aspetos centrais da narrativa. De facto, “a crueldade é uma presença densa ao longo de todo o Quixote.” (Bloom, 2008, 82) Eles são vítimas, mas também são, ambos, extraordinariamente resistentes. Eles resistem ao sofrimento, apoiando-se da melhor forma que conseguem.

              Tanto Quixote como Sancho são resilientes, exaltam a vontade e demonstram sabedoria. Une-os o afeto, para além da participação conjunta nas aventuras. Apoiam-se mutuamente – Quixote é salvo por Sancho e Sancho é salvo por Quixote. (Bloom, 1995, 135) Resistem e ultrapassam os obstáculos em conjunto. Vão crescendo numa relação livre que cria espaço para ambos se desenvolverem. (Bloom, 1995, 134) Manifestam sabedoria, que tanto é um atributo de Sancho como de Quixote, principalmente quando considerados em conjunto. Eles “são ao mesmo tempo surpreendentemente sábios e perigosamente loucos.” (Bloom, 2008, 93) Partiram numa demanda insana e descobriram um novo ego, encontraram-se.

    Estátua de Dom Quixote e Sancho Pança, a famosa dupla da literatura espanhola.

    5 – Conclusão

    Em jeito de síntese, D. Quixote de La Mancha subsiste não apenas como o primeiro romance moderno, mas como uma das mais profundas meditações sobre a condição humana e o declínio de uma era. Miguel de Cervantes, ao traçar as três incursões da dupla pelas terras da Mancha, Aragão e Catalunha, ofereceu-nos uma sátira magistral de uma Espanha que, após um século de glória, começava a duvidar de si própria, mergulhando num desequilíbrio entre o esplendor do passado e a crueza do presente.

    O conflito central da obra — e a sua perenidade no imaginário colectivo — reside precisamente no confronto entre o ideal e o real, entre o anacronismo heróico e a estrutura social pragmática. O episódio dos moinhos de vento, imortalizado no capítulo VIII da primeira parte, permanece como a metáfora absoluta desta tensão: ali, na investida solitária contra os gigantes imaginários, fundem-se a loucura literária e o heroísmo ético. Quixote não luta contra o que vê, mas contra o que a realidade insiste em lhe negar.

    Cervantes demonstra que D. Quixote e Sancho Pança, embora representem valores distintos e linguagens opostas, participam na construção de um mesmo mundo. A sua jornada é a prova de que a verdade não é um dado estático, mas um território de negociação constante entre o sonho e a experiência material. No final, a “loucura” de Quixote revela-se como uma forma superior de soberania: a capacidade de um indivíduo se manter fiel à sua própria liberdade, mesmo quando o mundo à sua volta se desmorona em poeira e desengano.

    6 – Bibliografia

  • Notas introdutórias à questão do cânone

    O cânone literário consiste no conjunto de obras literárias consideradas mais importantes e influentes da tradição. O cânone é uma seleção de textos adotados por uma comunidade, que produzem e reproduzem valores, que definem aquilo que é legítimo ou proibido. As obras canônicas são aquelas que exerceram maior influência sobre as obras posteriores e que apresentaram maior originalidade na sua época.

    “O tempo será, sempre, o grande factor de autoridade na definição de um cânone.” – Nuno Júdice

    Como explica Nuno Júdice, no ABC da crítica (2010), o reconhecimento literário, para inclusão de obras no cânone, “decorre de instâncias várias, desde a tradição, em que se inscrevem dicionários, enciclopédias, histórias literárias, a instituições, como academias, escola, universidade, etc. [ … Este reconhecimento] constitui uma instância de poder: aquele poder que decide que obras devem entrar no cânone, ou não.” (p. 22) A discussão inter pares, a consagração editorial, a crítica académica, decidem se dada obra pertence a um período literário, se é (ou não) incluído no cânone. Assim, para este autor, o reconhecimento canónico é a aceitação de uma obra por parte da sociedade ou da instituição académica.

    No caso do cânone ocidental de Harold Bloom, este é constituído pelas obras literárias que ele considera mais importantes e influentes da tradição ocidental, segundo aspectos estéticos e de originalidade. Este autor defende a ideia de que essas obras possuem um valor intrínseco, que transcende as questões sociais e políticas. Ele valoriza a beleza e a originalidade das obras literárias, em detrimento de critérios ideológicos ou políticos. Ou seja, para Harold Bloom, o cânone ocidental foi obtido pela seleção das obras literárias da tradição ocidental com base em critérios estéticos.

    Também para Nuno Júdice, a inclusão de uma obra no cânone exige “uma objectividade que depende sobretudo de critérios estéticos – que são os que contam, na avaliação da qualidade das obras – e não políticos, ideológicos e muito menos promocionais.” (p. 25) A História Literária tem um percurso próprio, imune a juízos de moda ou de época. A literatura “não pode estar dependente nem da moda nem do mercado. Pelo contrário, é da fixação de um modelo canónico que se estabelece o respeito por determinadas orientações estéticas ou, pelo contrário, pela desobediência a essas orientações.”(p. 51) Para além disso, “a fixação de um cânone não pode ser a eliminação das diferenças, nem a simplificação de um passado.” (p.36) Os autores do cânone, grandes e pequenos, são fundamentais para percebermos de onde vimos e a sociedade que fomos construindo, quais as origens da nossa cultura e quais os mitos ou modelos que persistem.

    “O cânone literário é, assim, o corpo de obras (e seus autores) social e institucionalmente consideradas “grandes”, “geniais”, perenes, comunicando valores humanos essenciais, por isso dignas de serem estudadas e transmitidas de geração em geração.” (Duarte, 2009)

    Referências:

    • Bloom, Harold. O cânone ocidental. Temas e Debates. 2011
    • Duarte, João Ferreira. “Cânone”. e-Dicionário de Termos Literários. UNL. 25-03-2025. https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/canone
    • Júdice, Nuno. ABC da crítica. Publicações D. Quixote. 2010
  • As Viagens de Ulisses e Eneias

    Ulisses (Odusseus) e Eneias são dois heróis da Antiguidade Clássica. Eles são os protagonistas das epopeias que levam seus nomes, respectivamente a Odisseia e a Eneida. Estas narram os acontecimentos míticos que se seguiram à Guerra de Tróia. Relatam as viagens marítimas que cada um realizou. Na Odisseia, o grego Ulisses retoma a casa, demorando dez anos a chegar a Ítaca, sua terra natal. Na Eneida, a travessia levará Eneias e os seus companheiros até à Península Itálica, onde fundam uma nova pátria, dando origem a Roma e ao seu Império.

    A Odisseia é atribuída a Homero. Embora tenha sido fixada por escrito em finais do século VIII a.c., ela terá sido elaborada ao longo de séculos de tradição oral. Situada na sequência da Ilíada, esta epopeia narra as aventuras de Ulisses que, na sua viagem de regresso ao lar, enfrenta inúmeros perigos e ameaças, tendo que lutar pela própria vida. Ele é uma figura que sofre e que luta pela sobrevivência, mas que saboreia os prazeres da aventura. É o homem dos mil expedientes, corajoso e valente, de espírito aberto e curioso, que tudo quer experimentar. É com astúcia e inteligência que Ulisses ultrapassa as dificuldades e os obstáculos que encontra. Para todas as situações, ele consegue encontrar uma solução. Por fim, ele consegue recuperar a paz e reencontrar a harmonia do lar.

    Ulisses. Fonte: wikimedia

    A acção desta epopeia está repartida em três tempos principais:
       1) Situação de Penélope e Telémaco, em Ítaca. Desconhece-se o paradeiro de Ulisses que não retornara a casa depois do fim da guerra. Considerando-o morto, vários pretendentes assediam a sua mulher Penélope, para que ela escolha novo marido. Seu filho Telémaco parte em busca de notícias sobre o pai. Entretanto, retido na ilha da ninfa Calipso, Ulisses chora pelo regresso a casa. Após ser libertado, por ordens dos deuses, faz-se ao mar numa jangada, mas naufraga, devido a uma tempestade enviada por Poséidon;
       2) Chegada de Ulisses ao país dos Feaces. Estes acolhem-no bem e o protagonista, a pedido do rei Alcínoo, narra as várias aventuras, perigos e dificuldades, que conseguiu ultrapassar graças à sua inteligência e astúcia;
       3) Regresso de Ulisses a Ítaca. Penélope, desconhecendo o seu paradeiro, continua a esperar por ele. Ela inventa mil estratagemas para protelar a escolha de um pretendente a marido. Entretanto Ulisses encontra-se com Telémaco e ambos preparam um plano de vingança. O herói vinga-se dos pretendentes que o maltratam, matando-os, com a ajuda do porqueiro Eumeu e de Telémaco. É finalmente reconhecido por Penélope e recupera o domínio do palácio. As aventuras de Ulisses, na superação desesperada dos perigos e ameaças que lhe surgem, na luta pela sobrevivência, tornaram-se a matriz de inúmeras narrativas posteriores, tanto na literatura como no cinema.

    Tal é o caso da Eneida, a mítica aventura dos heróis que fundaram o berço de Roma e seu Império. Conhecemos a sua origem: este poema épico foi escrito por Públio Vergílio Marão, entre os anos de 29 e 19 a.c. Ao escrever esta epopeia, Vergílio inspirou-se em Homero, tentando superá-lo (aemolatio). Ele empenhou-se em fazer da Eneida o poema mais perfeito de todos os tempos. Ora, “a imitação de um modelo era na Antiguidade Clássica o processo canónico para a produção literária” (Cerqueira 10). A poesia épica tinha como modelo os poemas homéricos: a Ilíada, poema de guerra, e a Odisseia, poema de viagem. Vergílio, imitando esse modelo, dividiu a Eneida em duas partes que correspondem às duas epopeias homéricas: “A primeira parte (I-VI) segue o ritmo da Odisseia, o da viagem; na segunda parte (VII-XII) sobressai o ambiente da Ilíada, as guerras, as horríveis guerras e as proezas dos heróis” (Centeno 247). Para além da estrutura do poema, Vergílio pôde ainda contar com outras técnicas consagradas na epopeia homérica: início in media res, discursos dos heróis, deuses e profecias, descrições das armas e dos combates, etc.

    Eneias Salvando seu Pai Anquises do Incêndio de Tróia. Pintura a óleo de António Manuel da Fonseca (1796 – 1890). Fonte: wikimedia

    A Eneida dá continuidade à Ilíada de Homero: o tempo da diegese, ou seja, dos acontecimentos narrados, ocorre imediatamente após a queda da cidade de Tróia. Se a Odisseia narra as aventuras de um grego, Ulisses, que tenta voltar para o seu lar, a Eneida narra as aventuras de um troiano que, depois da destruição da cidade de Tróia, foge com alguns companheiros, em demanda por um lugar no mundo. Eles são liderados por Eneias, na sua luta pelo direito a habitar a terra. Eneias procura um sítio para fundar uma nova cidade.

    Na primeira parte da narrativa, o herói naufraga ao largo de Cartago. Ele encontra a rainha Dido e narra-lhe as suas aventuras. Conta-lhe o episódio do Cavalo de Tróia, como conseguiu escapar da cidade a ferro e fogo, e as peripécias para chegar à Península Itálica, até aportar em Cartago. A rainha apaixona-se por Eneias, mas acaba por se suicidar quando este decide partir. Eneias consulta uma sacerdotisa de Apolo, obtendo permissão para descer ao mundo dos mortos.

    Na segunda parte da narrativa, os troianos batalham pela conquista de território. Eneias chega finalmente a Itália, onde é recebido por Latino, rei do Lácio. Mas Turno, rei dos Rótulos, é instigado por Juno, a guerrear contra Eneias. Palante, filho de Evandro, parte para a guerra com Eneias. A pedido de Vénus, Vulcano forja o escudo do herói. O troiano aparece como vencedor da batalha do Áccio. Turno aproveita a ausência de Eneias para assaltar o acampamento troiano mas dá-se uma batalha sangrenta quando o herói regressa. Palante morre. No final, Turno desafia Eneias para um combate singular. Acaba morto e Eneias sai vencedor.

    Na Eneida, a acção dos troianos é determinada por uma pátria futura, por uma missão que os transcende. “Dos seus infortúnios e combates, que cumprem o que está determinado pelos Fados, nascerá uma estirpe troiana em Itália, origem mítica de Roma e da sua grandeza” (Cerqueira 9).

    Bibliografia:

    • Centeno, Rui (Coord.). Civilizações Clássicas II: Roma. Lisboa: Universidade Aberta, 1997
    • Ferreira, José Ribeiro. Civilizações Clássicas I: Grécia. Lisboa: Universidade Aberta, 1996
    • Vergílio. Eneida. Trad. de Luis Manuel Gaspar Cerqueira. Lisboa: Bertrand Editora, 2003