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Reflexões, ficção e outras narrativas



Investigar é uma forma de permanecer.

Categoria: Colheita

  • Da Geologia ao Acto Cénico: A Vanguarda Gastronómica em Portugal


    Portugal assiste, no momento actual, a uma transição profunda: passámos do consumo passivo para a curadoria do território. A gastronomia contemporânea deixou de ser um mero exercício de técnica para se assumir como uma narrativa identitária. O prato já não é o fim, mas o meio através do qual lemos a paisagem. Neste cenário de mutação, dois projectos emergem com uma força intelectual distinta: o  MOGO , de João Rodrigues, e  O Palco , de Marco Almeida. Embora partilhem a obsessão pela origem, as suas metodologias são fascinantemente divergentes: enquanto Rodrigues assume o papel de “Chef-Investigador” focado na documentação científica do solo e do mar, Almeida posiciona-se como o “Chef-Encenador“, transformando a sustentabilidade numa dramaturgia viva.

    1. Introdução: O Prato Além da Receita


    O dilema central da nossa era é a desconexão. Vivemos numa amnésia alimentar onde o ingrediente é frequentemente um objecto órfão, desprovido de contexto, rosto ou geografia. Esta lacuna não é apenas gastronómica, é cultural. A resposta a este vazio surge agora através de uma nova ética da hospitalidade. No litoral alentejano, o MOGO propõe-se a descodificar o território com a precisão de um geólogo. Em Coimbra, O Palco eleva o produto local ao estatuto de protagonista de uma obra em vários actos. São respostas distintas a um mesmo imperativo: a necessidade de restabelecer o elo invisível entre o que comemos e o ecossistema que nos sustenta.

    2. Ler a Terra: Quando a Gastronomia se Torna Investigação


    O MOGO, situado no Estuário do Sado, não é apenas um restaurante; é um laboratório de investigação gastronómica. Sob a égide de João Rodrigues, o conceito materializa-se através de um gesto intelectual: “ler a terra”. O menu deixa de ser uma sequência de pratos para se tornar uma crónica da paisagem, dividida entre a Duna, a Terra e a Água.Esta abordagem é revolucionária porque retira o chef do pedestal da criatividade pura e coloca-o no campo da investigação. Ao interpretar os ritmos da biodiversidade, a cozinha torna-se uma ferramenta de documentação cultural. MOGO é um lugar onde a investigação culinária se encontra com os ritmos da terra e do mar.

    3. O Ingrediente como Protagonista: A Cozinha é um Palco


    Se no MOGO a abordagem é de investigação, em Coimbra, no restaurante  O Palco , a gastronomia é uma apoteose cénica. O Chef Marco Almeida utiliza a metáfora teatral para estruturar a sua visão: os ingredientes nacionais são as personagens, enquanto os produtores locais representam os “ensaios” — o trabalho invisível que precede a estreia à mesa. A excelência e a sustentabilidade não são conceitos abstractos, mas sim uma encenação sazonal que ganha vida no  Menu Equilíbrio .A originalidade desta proposta reside na capacidade de dramatizar a região centro. A experiência é dividida em actos e cenas, permitindo que o comensal compreenda o ritmo da estação. Para democratizar este espectáculo, o restaurante desenha diferentes cenários:

    • Palco Principal:  A montra da alta gastronomia e do rigor técnico.
    • Palco Infantil:  Onde se educa o paladar das gerações futuras.
    • Palco Vegetariano:  Uma ode à terra onde a proteína vegetal assume o papel principal.

    (documentário sobre o projecto O Palco pode ser visto aqui.)

    4. Água: O Elo Invisível entre Ecossistemas


    Para o projecto MOGO, a água é a força motriz que dissolve as fronteiras entre o mar, a duna e a terra firme. A investigação de João Rodrigues inicia-se na  Água de Profundidade , focando-se em ecossistemas pelágicos e espécies migradoras, para depois serpentear até à costa. É nesta fluidez que encontramos conceitos como a “Água Pesada” (zona de rebentação) e a “Confluência” (o encontro fértil entre o rio e o mar). Abaixo, exemplificamos como este mapeamento hídrico dita a biodiversidade à mesa:

    • Água de Profundidade:  Onde a investigação se foca em espécies como o  atum  ou o peixe-espada preto.
    • Água de Rocha:  O habitat de resiliência onde prosperam os  percebes.
    • Água Pesada:  A zona de energia constante onde o  sargo  se torna o protagonista.A água é o fio condutor que percorre o MOGO… o elo silencioso entre lugares e pessoas.

    5. O Montado e a Montanha: A Resiliência no Prato


    A narrativa do MOGO estende-se à Serra de Grândola e ao Montado de sobro, apresentando-os como uma “savana humanizada”. Aqui, a gastronomia revela-se um exercício de resiliência. O Montado não é natureza selvagem; é um equilíbrio delicado escrito no solo, onde a gestão humana — através da extracção da cortiça e da lenha — é vital para a manutenção da biodiversidade. As serras funcionam como a “nascente do fluxo”, alimentando os sistemas hídricos que sustentam regiões como Melides. Neste ciclo, o tempo é soberano: a chuva dita o crescimento das bolotas que alimentam o  porco alentejano , e a humidade da serra favorece o mel e as plantas silvestres. O prato torna-se, assim, o resultado final de um ciclo de regeneração do solo.

    6. Do Projecto Matéria ao Prato: A Ética da Origem


    A fundação ética de toda esta estrutura é o  Projecto Matéria . Criada por João Rodrigues e apoiada pela UNESCO, esta plataforma de mapeamento de produtores nacionais é o alicerce sobre o qual o MOGO se ergue. Não se trata apenas de encontrar os melhores produtos, mas de compreender os ciclos naturais e respeitar o conhecimento “construído no terreno”. Esta base de dados viva permite uma gastronomia mais justa. Quando o chef conhece a história do produtor e o ritmo do solo, a cozinha deixa de ser um acto de vaidade para se tornar um acto de preservação cultural. É esta transparência radical que define a nova consciência gastronómica portuguesa.

    7. Conclusão: O Futuro é um Caminho em Construção


    Projectos como o MOGO e O Palco provam que a gastronomia atingiu a maturidade enquanto ferramenta de pensamento crítico. Eles elevam o acto de comer a uma experiência de cidadania ecológica e cultural. O luxo contemporâneo já não reside no exotismo, mas na profundidade do conhecimento e na verdade do território. Com a abertura do MOGO prevista para a  Primavera de 2026 , Portugal prepara-se para consolidar um novo paradigma onde o restaurante é um observatório da terra. Resta agora a provocação final: nas suas escolhas alimentares diárias, está apenas a consumir um produto ou sente-se capaz de, tal como estes mestres, começar a “ler a terra” em cada garfada?

  • Inverno soturno numa cidade sombria

    SPLEEN

    Pluviôse, irritado com toda a cidade,
    Da sua urna, em caudais, verte um frio tenebroso
    Sobre aquele cemitério e seus moradores pálidos
    E traz mortalidade aos arredores brumosos.

    No mosaico, o meu gato, em busca de conchego,
    Vai agitando o corpo tão magro e sarnento;
    Vagueia pla goteira a alma de um poeta
    Com a sua triste voz de fantasma friorento.

    Lamenta-se o moscardo, e a lenha, que fumega,
    Acompanha em falsete o relógio engripado,
    Enquanto num concerto de sujos perfumes,

    Como herança fatal de uma hidrópica velha,
    O valete de copas e a dama de espadas
    Falam sinistramente dos amores defuntos.

    — Charles Baudelaire

    O poema “Spleen” foi escrito por Charles Baudelaire no sec. XIX, em Paris, quando esta se impunha como a primeira metrópole moderna. Este soneto retrata o ambiente de um dia de Inverno numa grande cidade. O poema utiliza a descrição de uma paisagem urbana decadente para oferecer uma visão intensa e sensorial do estado de tristeza, depressão, angústia e  profunda melancolia que define o próprio spleen. Através da representação de uma cidade afetada pela chuva e pelo frio persistente, da representação de figuras decrépitas em estado de sofrimento doentio, da personificação de um jogo de cartas como palco para a recordação de perdas passadas, o texto transmite um sentimento avassalador de mal-estar, tédio e a presença inescapável da morte. Este poema não é uma narrativa «cronológica», mas uma sucessão de imagens que expressam um ambiente soturno, até macabro e de horror. Tais imagens decorrem do global para o particular, da cidade para o doméstico, do espaço exterior para o interior anímico do próprio sujeito lírico.

    A primeira estrofe descreve de forma mórbida uma paisagem urbana desolada e devastada pela mortalidade. O sujeito lírico começa por construir o ambiente geral do poema, esclarecendo o tempo e o lugar onde se irão suceder as imagens posteriores: logo no início indica o antigo mês republicano francês de Pluviôse (Janeiro/Fevereiro), um dia rigoroso de Inverno que jorra um “frio tenebroso” por todo o burgo. É neste espaço urbano que se desenrola o poema. Uma urbe da qual destaca, acima de tudo, o efeito do clima rigoroso que se estende “sobre aquele cemitério e seus moradores pálidos/ E traz a mortalidade aos arredores brumosos. //“. Encontramo-nos, então, perante uma cidade fustigada pelo rigor do Inverno, pelo frio e pela chuva, que resulta num mal-estar coletivo de sofrimento, doença e morte. É, sem dúvida, um ambiente mórbido, este que logo na primeira estrofe é representado.

    A segunda estrofe refere um espaço doméstico, também ele doentio. Dá-se uma mudança de escala, passa-se da cidade para um contexto de maior proximidade, como é indicado pela presença do “meu gato”, “tão magro e sarnento”, que procura refúgio, agitado e sem sossego; ou pela goteira ruidosa, pela sarjeta onde “vagueia … a alma de um poeta” triste. O gato e esta goteira são objetos próximos, indicando um edifício onde o sujeito lírico se encontra, já não tão distante e vago como o aglomerado urbano representado na estrofe anterior. O ambiente descrito mantém a sua característica doentia, de sofrimento e de morte. O gato escanzelado está visivelmente enfermo e, da goteira ,o som que se ouve é triste, frio, fantasmagórico: “Vagueia pela goteira a alma de um poeta / Com a sua triste voz de fantasma friorento. //”. A sensação de estranheza e solidão do poema é amplificada.

    Na terceira estrofe são descritos objetos e entidades degradadas, em sofrimento, mas os seus aspetos são mais precisos e refinados, uma vez que nos encontramos num espaço de, ainda, maior proximidade. Agora é retratado o espaço interior através de um inseto lamuriosos, de lenha que fumega, de um relógio de pêndulo avariado. De notar que, na medida de maior proximidade, é estimulado o sentido da audição, que é suscitada pelo lamento, por termos como falsete e concerto. O sujeito lírico continua a utilizar a doença e a sugerir a morte, atribuindo características tristes, sujas e desagradáveis aos objetos e acontecimentos que personifica: um “relógio engripado”, um concerto de aromas sujos.

    A quarta e última estrofe parece representar um estado anímico interior, ao rematar o soneto com uma personificação que pode ser entendida como uma alucinação do próprio sujeito lírico: ele escuta um diálogo entre duas cartas de baralho, que conversam entre si. “O valete de copas e a dama de espadas / Falam sinistramente de amores defuntos. //”, abordando o passado perdido e terminando a falar de morte, tal como no início do poema.

    O título deste soneto é sugestivo: “Spleen”, que, em francês, expressa um estado de espírito depressivo de letargia, de tédio, de vazio existencial. E é o que este poema nos oferece. Nele podemos observar um sujeito lírico que transmite sensações desconfortáveis, impressões de um momento mórbido na cidade. Ele utiliza elementos simbólicos e decadentes para criar um ambiente sombrio, uma atmosfera soturna de mal-estar, de sofrimento aflitivo, de melancolia angustiada, do tal vazio existencial.



    REFERÊNCIAS:

    • Baudelaire, Charles. “Spleen”. As Flores do Mal, traduzido por Fernando Pinto do Amaral, Assírio & Alvim, Lisboa, 1992, pp. 192-193.

  • Para que serve um crítico literário?

    A arte está intimamente relacionada com o público que a consome. Neste, existe um grupo ideal constituído pelos críticos de arte. São um público privilegiado: profundos conhecedores, os críticos são, por um lado, consumidores de arte informados e, por outro, produtores de textos que nos pretendem influenciar. Eles formulam argumentos e emitem juízos acerca da obra de arte. Ajudam-nos a interpretar, a contextualizar e a situar uma obra em relação a outra. Permitem-nos reflectir e ampliar o entendimento que fazemos das obras que observamos.

    A palavra “crítica” vem do grego “krinein”, que significa entender, examinar, estudar. O termo também é usado para separar e distinguir, escolher, decidir, com o sentido de que não há pré-julgamentos. A crítica consiste no comentário e na interpretação de obras de arte por meio de palavras. Trata-se de uma observação e análise aprofundada, com o intuito de compreender o trabalho do autor e facilitar a sua apreciação pelo público.  O crítico é alguém que, perante uma obra de arte, procura demonstrar a verdade que tal obra lhe comunicou.

    De acordo com o e-Dicionário de Termos Literários, a ‘crítica literária‘ pode ser entendida como  “a produção de um discurso acerca de um texto literário individual ou da obra global de um autor, independentemente da situação de comunicação que desencadeia e/ou particulariza esse discurso.” (Martins 2009) A crítica literária consiste na leitura e análise aprofundada de um texto, com o intuito de compreender o trabalho do autor e contribuir para a sua apreciação pelo leitor. Esta crítica tem por finalidade ler de forma inteligente um texto e comunicar essa análise ao leitor da crítica, enriquecendo o seu olhar sobre a obra. Para isso, o crítico deve construir um discurso organizado e responder às questões que o texto levanta. Se, no final da leitura da crítica, o leitor encontrar respostas para essas questões, então a crítica foi bem sucedida.

    O objecto da crítica literária é o texto literário. A crítica “nasce de uma relação entre esse texto e o crítico que o vai analisar.” (Júdice, 2010, p. 11) O crítico deverá permanecer distanciado “se quiser construir um discurso organizado, no aspecto conceptual, sobre o objecto da crítica.” (Júdice, 2010, p. 15) A crítica deve ultrapassar a leitura superficial e atingir uma leitura inteligente que responda a: i) porque esta obra suscita prazer ao leitor? ; ou ii) porque esta obra afasta o leitor?

    A crítica literária é análise avaliativa das produções artísticas. A leitura feita por alguém que analisa é diferente da casual. A partir do estudo das características de cada texto, o crítico literário é o responsável por apontar os acertos e as falhas de determinada produção em termos estéticos, linguísticos e retóricos. A análise é uma aproximação ao universo da obra “ajudando a compreender os mecanismos que o autor utilizou para que o leitor entre ou se afaste da sua obra.” (Júdice, 2010, p. 13)

    Uma leitura crítica “deve abrir ao leitor a compreensão da obra, interpretando, descodificado, integrando o livro no contexto em que é produzido, etc.” (Júdice, 2010, p. 57) A crítica deve ter a função de esclarecer o leitor ingénuo”sobre géneros, estilos, movimentos, enfim, tudo o que constitui a diversidade e a plural coexistência da criação de linguagens dentro de uma História literária.” (Júdice, 2010, p. 58) A crítica pretende”mudar ou enriquecer o olhar do leitor perante o livro.” (Júdice, 2010, p.14) Os críticos têm”um papel decisivo no estabelecimento de uma relação do texto com o seu leitor, mediando essa relação e estabelecendo cânones (…)” (Júdice, 2010., p. 63)

    Um crítico é aquele que julga, avalia, comenta ou investiga as obras literárias. A função do crítico é contribuir para a compreensão da obra e para a abrir ao leitor. Ele tem um papel mediador, é um adjuvante da leitura. O crítico literário aponta detalhes e elementos que enriquecem a experiência de leitura. Com sua bagagem, ele oferece interpretações que passariam despercebidas, ou seja, dificilmente seriam valorizadas pelo leitor casual. Então, podemos dizer que esta atividade serve para tornar públicas as características que merecem destaque em uma obra.

    “O lugar do crítico é o do leitor: e, aí, tentar encontrar as questões que o texto coloca a quem o lê, procurando dar-lhes uma resposta já que a simples leitura não tem esse fim.” (Júdice, 2010, p. 17) Se, ao ler a crítica, o leitor encontra respostas às questões que o texto levanta, então o crítico pode dar-se por satisfeito e a crítica atingiu o seu objetivo. Pelo contrário, se no final da leitura da crítica o leitor termina sem nenhum esclarecimento ou até mais confuso (devido à linguagem, ao estilo do crítico, etc.) então é porque a crítica falhou, o crítico não desempenhou bem a sua função.

    Bibliografia:


    – Júdice, Nuno. (2010) ABC da crítica. Publicações D. Quixote.

    – Manuel Frias Martins: s.v. “Crítica Literária”, E-Dicionário de Termos Literários (EDTL), coord. de Carlos Ceia, ISBN: 989-20-0088-9, https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/critica-literaria , consultado em 08-03-2025