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reflexões, ficção e outras narrativas

Categoria: Biblioteca

  • Das meta-narrativas à pluralidade

    Paisagem urbana pós-moderna (Londres). Foto de Garry Knight. Fonte: wikimedia.

    A sociedade resultante da segunda metade do sec. XX vive num mundo onde factos e ficção se entrelaçam, onde as características produtivas se modificaram de forma inimaginável, onde a base teórica de suporte, a sua tradição, se alienou, ou, pelo menos, parece ter perdido valor. Nesta perspectiva, numa sociedade pós-industrial que se realiza na era dos media e da cibercultura, onde a informação se confunde com o ruído, parece natural que o indivíduo se sinta perdido, deslocado, traído, uma vez que se encontra submerso por mensagens díspares e incongruentes, sentindo-se impotente pela contínua e veloz mudança das condições de vida, da mutação vertiginosa das estruturas sociais e culturais, que o deveriam sustentar mas que parecem sufocá-lo.

    Num extenso período histórico anterior, nessa modernidade baseada no racionalismo iluminista que se desenvolveu desde o Renascimento, perseguiu-se uma verdade universal, um conjunto de valores sustentados pela razão que estabeleceram não só a moral vigente, mas que edificaram a própria sociedade, a sua cultura e a sua história. Princípios comuns aplicados indiscriminadamente guiaram a comunidade, as famílias e os indivíduos, organizando as suas relações e vivências. Estabeleceram-se (meta)narrativas que distinguiam a ordem do caos, discursos que preservaram certa espécie de poder contra todo e qualquer tipo de desvio à norma. Na senda do progresso e convictos da capacidade insuperável da razão humana, assistimos ao desenvolvimento de uma sociedade industrial e do capitalismo a ela associado, que prometeu libertar o ser humano das suas condições medievais mas que resultou no sofrimento das Grandes Guerras Mundiais e no horror de Auschwitz e dos restantes campos de concentração.

    Seguiu-se um período de revoltas sociais que lutaram por liberdade e independência, pela descolonização e pela emancipação da mulher. Nos anos 60 do século passado, os movimentos artísticos, saturados do mecanicismo e funcionalismo do Modernismo, corrente artística da primeira metade do século, reagiram com um formalismo livre e descontraído, incorporando elementos históricos e tradicionais no design dos seus edifícios. Aquilo que começou com a arquitectura (por exemplo, com as obras de Philip Johnson ou Renzo Piano) extravasou para outras expressões artísticas, como a literatura (Kurt Vonnegut) ou a música (Michael Nyman). O termo pós-moderno impôs-se e foi apropriado pela academia, já na década de 70, principalmente pelos pensadores franceses, como Lyotard, que definia pós-moderno como uma “incredulidade face às meta-narrativas”.

    A metanarrative is the story an ideology tells itself—an ideology of ideologies. It’s the “big picture” story that a mode of thinking, a theory, a worldview maintains to explain and legitimate its operations.

    (KLAGES, p.158)

    Os filósofos pós-modernos colocam em causa as «meta-narrativas», pois consideram-nas fabricadas por discursos de poder que impõem uma verdade e visão de mundo particular. Ora, vários pós-modernistas negam a existência de realidades objectivas, de verdades absolutas e universais. Argumentam que estas são sempre parciais, dependente do contexto histórico e social em que são “construídas”. Questionam, assim, uma história unificada, global e completa sobre tudo o que existe. Para eles, “These ‘metanarratives’ [‘super-narratives’], which purport to explain and reassure, are really illusions, fostered in order to smother difference, opposition, and plurality.” (BARRY, p. 127) Podemos considerar o pós-modernismo como a crítica às «meta-narrativas», “the awareness that such narratives serve to mask the contradictions and instabilities that are inherent in any social organization or practice.” (KLAGES, p. 159)

    Os pensadores pós-modernos negam a existência de qualquer verdade universal e não aceitam que exista apenas uma mundividência. A realidade, tal como o conhecimento, é fragmentada e plural, perspectivada por quem a experiência. Existem diferentes formas de ser e de saber. Maria Laura Pires (p. 93) afirma que “apenas podemos conhecer a nossa experiência pessoal e a nossa interpretação dessa experiência.” Para além disso, os pensadores pós-modernos “defendem a multiplicidade, a pluralidade, a fragmentação e a indeterminação. Abandonam ainda a noção de sujeito racional e unificado […] a favor de um sujeito fragmentado e social e linguisticamente descentrado.” (PIRES, p. 95)

    Como constata Peter Barry (p. 127), “as ‘Grandes Narrativas’ de progresso e perfeccionismo humano já não são sustentáveis, pelo que apenas podemos pretender uma série de ‘mini-narrativas’ provisórias, contingentes, temporárias, e relativas e que sirvam de base para a acção de grupos específicos em circunstâncias locais particulares.” Estas narrativas, mais pequenas, são estórias que explicitam pequenas prácticas, eventos locais, em vez de conceitos de grande-escala, universais ou globais. Para Mary Klages (p.159), estas “ ‘mini-narrativas’ pós-modernas são sempre situacionais, provisórias, contingentes e temporárias, não reivindicando universalidade, verdade, razão ou estabilidade.”

    Vivemos num mundo que já não suporta grandes narrativas e modelos universais, de pensamento e comportamento, antes fragmentado em saberes e significados, valorizando as especificidades locais e as liberdades individuais. É compreensível que as pessoas se sintam assustadas e perdidas nos seus referenciais costumeiros, que procurem verdades únicas e prácticas globais, que desejem uma visão dualista de ordem-caos. Sentem o seu mundo dilacerado e questionam as múltiplas opções. No entanto:

    For the postmodernist, by contrast, fragmentation is an exhilarating, liberating phenomenon, symptomatic of our escape from the claustrophobic embrace of fixed systems of belief. In a word, the modernist laments fragmentation while the postmodernist celebrates it.

    (BARRY, p. 123)

    BIBLIOGRAFIA:

    • Barry, P. (2017). Beginning theory: An introduction to literary and cultural theory (4th Edition – ebook, edição do Kindle). Manchester University Press. https://www.amazon.co.uk/gp/product/B07WFQ466H
    • Klages, M. (2017). Literary Theory: The Complete Guide (2nd Edition – ebook, edição do Kindle). Bloomsbury Publishing. https://www.amazon.co.uk/gp/product/B01NAHM5A8
    • Pires, M.L.B. (2006). Teorias da Cultura (2ª edição). Universidade Católica Editora.
  • O Sangue Negro de Noémia de Sousa

    Noémia de Sousa

    Noémia de Sousa (1926 – 2002)

    O universo literário de expressão feminina em Moçambique começou com a poesia de Noémia de Sousa a meio do século XX. A sua voz, ao protestar contra as opressões sofridas pelas mulheres moçambicanas, representa a resistência da mulher africana e dos povos de África.

    Poema: Sangue Negro
    
    Ó minha África misteriosa e natural,
    minha virgem violentada,
    minha Mãe!
    
    Como eu andava há tanto desterrada,
    de ti alheada
    distante e egocêntrica
    por estas ruas da cidade!
    engravidadas de estrangeiros
    
    Minha Mãe, perdoa!
    
    Como se eu pudesse viver assim,
    desta maneira, eternamente,
    ignorando a carícia fraternamente
    morna do teu luar
    (meu princípio e meu fim)...
    Como se não existisse para além
    dos cinemas e dos cafés, a ansiedade
    dos teus horizontes estranhos, por desvendar...
    Como se teus matos cacimbados
    não cantassem em surdina a sua liberdade,
    as aves mais belas, cujos nomes são mistérios ainda fechados! 
    
    Como se teus filhos – régias estátuas sem par –,
    altivos, em bronze talhados,
    endurecido no lume infernal
    do teu sol causticante, tropical,
    como se teus filhos intemeratos, sobretudo lutando,
    à terra amarrados,
    como escravos, trabalhando,
    amando, cantando –
    meus irmãos não fossem!
    
    Ó minha Mãe África, ngoma pagã,
    escrava sensual,
    mística, sortílega – perdoa!
    
    À tua filha tresvairada,
    abre-te e perdoa!
    
    Que a força da tua seiva vence tudo!
    E nada mais foi preciso, que o feitiço ímpar
    dos teus tantãs de guerra chamando,
    dundundundundun – tãtã – dundundundun – tãtã
    nada mais que a loucura elementar
    dos teus batuques bárbaros, terrivelmente belos... 
    
    para que eu vibrasse
    para que eu gritasse,
    para que eu sentisse, funda, no sangue, a tua voz, Mãe!
    
    E vencida, reconhecesse os nossos elos...
    e regressasse à minha origem milenar.
    Mãe, minha Mãe África
    das canções escravas ao luar,
    não posso, não posso repudiar
    o sangue negro, o sangue bárbaro que me legaste...
    Porque em mim, em minha alma, em meus nervos,
    ele é mais forte que tudo,
    eu vivo, eu sofro, eu rio através dele, Mãe!
    
    - Noémia de Sousa, no livro "Sangue negro". Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001, p. 141-142.

    A ‘mãe dos poetas moçambicanos’ nasceu perto do Oceano Índico, em Catembe, Moçambique, a 20 de Setembro de 1926. Aos seis anos de idade mudou-se com a família para Lourenço Marques, actual Maputo. Após o falecimento do pai, em 1932, Noémia de Sousa teve que trabalhar para ajudar a mãe a sustentar os seus 5 irmãos. De noite, começou a estudar no curso pós-laboral de comércio, onde era a única aluna negra da Escola Técnica. Por essa altura, publicou seu primeiro poema – Canção fraterna – no Jornal da Mocidade Portuguesa. Em 1951, encerrou a sua carreira de poetisa e rumou a Lisboa. Em 1962, casou-se com o poeta Gualter Soares, com quem teve uma filha. Por volta de 1964, fugiu da ditadura em Portugal em direcção a Paris. Regressou a Lisboa em 1975, onde trabalhou como jornalista. Faleceu em Cascais, Portugal, a 4 de Dezembro de 2002.

    Através da sua poesia, Noémia de Sousa assumiu o papel de porta-voz do povo moçambicano e questionou os problemas culturais, sociais e políticos de seu país. Recorrendo aos versos livres, com adjectivação e exclamação abundante, a sua linguagem apresenta um carácter intimista de forte emotividade, com traços narrativos e elementos nostálgicos. Prevalece, na crítica sociopolítica, uma voz feminina que afirma a negritude e exalta a cultura africana. É uma poesia acusatória e com forte impacto social que denuncia e protesta contra o longo período de dominação pelos colonizadores portugueses. Ela fala-nos de injustiça e opressão mas também de esperança, a esperança de um futuro melhor em liberdade.

    Poema: Um dia
    
    Um dia
    Quando este nosso sol ardente de África
    nos cobrir a todos com a benção do mesmo
    calor,
    quero ir contigo, amigo,
    de mãos dadas, deslumbrados,
    pelos trilhos abertos da nossa terra
    estranha,
    adubada com sangue e suor de séculos...
    
    Nas machambas,
    o ruído repercutido de tractor
    soará como uma canção de triunfo.
    Nas matas,
    as tutas já não serão aves apenas
    e no centro da vida,
    nosso irmão negro, quebradas as grilhetas,
    celebrará seu segundo nascimento
    num batuque diferente de todos os outros...
    
    Uma luz clara e doce se abrirá para todo
    e nós iremos de mãos dadas, amigo,
    pelos trilhos verdes de Moçambique.
    Na noite,
    não mais soluçarão, estertoradas,
    canções marimbadas por irmãos
    naufragados
    (ô mamanô! Ô tatanô!),
    Não mais a acusação muda dos olhos
    precoces
    de crianças de ventres empinados
    não mais jaulas erguidas para os
    inconformistas
    gritando gritos de sangue
    através de tudo!
    
    Não mais, noite...
    E nós iremos de mãos dadas,
    amigo,
    pelos trilhos abertos de Moçambique,
    mergulhados no clarão eterno do dia
    infindável.
    
    - Noémia de Sousa, no livro "Sangue negro". Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001, p. 114-115.

    A obra de Noémia de Sousa está dispersa por muitos jornais e revistas. Seus textos poéticos ficaram famosos ao serem divulgados em diversas publicações de antologias de poesia moçambicana. Apesar de ter influenciado várias gerações de poetas apenas viu um livro editado: Sangue Negro, que foi publicado em 2001, pela Associação dos Escritores Moçambicanos, como uma homenagem pelos 75 anos da escritora. Este livro reúne os 46 poemas escritos por Noémia de Sousa entre 1949 e 1951. Dez anos mais tarde, em 2011, a editora moçambicana Marimbique publicou uma nova edição de Sangue Negro. Em 2016, a editora Kapulana publicou o primeira edição brasileira do livro, que pode ser encontrado aqui. Em 2023, o seu livro ainda não fora publicado em Portugal.

  • Oposição lexical em Portugal

    Na segunda metade do século XX, Luís Lindley Cintra efectuou um estudo sobre as áreas lexicais no território português, concluindo que existem diversos tipos de estruturação lexical em Portugal. No entanto, chamou particular atenção para a oposição lexical que existe entre duas regiões: uma, a noroeste e oeste, que se estende a norte do rio Tejo, e que exclui os distritos da Guarda, de Castelo Branco e o oriente do distrito de Bragança; e uma outra região que ocupa o restante Portugal Continental. A zona de noroeste-oeste é mais conservadora, mantém os vocábulos mais antigos e não é tão propensa a inovações, em oposição à zona sul-leste que aceita mais facilmente os novos vocábulos. O autor estabelece um paralelo entre estas zonas e a dinâmica do povoamento do território: a primeira zona corresponde a um Portugal densamente povoado, onde as populações têm raízes profundas e são mais avessas a inovações, enquanto a segunda zona assistiu ao repovoamento nos séc. XII e XIII, foi ocupada por populações de várias proveniências que se instalaram em novas localidades e que eram propensas a aceitar novas formas de viver e de falar. Para o autor, é esta oposição entre as duas regiões que “parece estar na base de um dos traços essenciais – talvez o mais significativo – na estruturação lexical do território português.” (CINTRA 16)


    Bibliografia:

    – Cintra, L. F. “Áreas lexicais no território português” in Boletim de Filologia, vol XX. Lisboa: Centro de Estudos Filológicos, 1962. pp. 273-307

  • Origem dos vocábulos da língua portuguesa.

    O conjunto vocabular do idioma português foi obtido em diversas vagas sucessivas, relacionadas com as circunstâncias históricas e provenientes das línguas com que os portugueses estiveram em contacto ao longo dos séculos.

    Tal como as outras línguas românicas, o vocabulário português tem origem no latim vulgar. Este latim incorporou elementos pré-latinos, relacionados com o ambiente rústico, como: barranco, lapa, morro, várzea, chaparro, mato, seara, broa, bezerro, bruxa, etc.” (PIEL 2) Para além disso, enquanto vigorou o Império Romano, o latim vulgar recebeu diversos elementos estranhos, virtude do seu contacto com outros povos e regiões. Piel destaca os elementos “«mediterrâneos», etruscos e, principalmente, gregos” para além de elementos próprios de povos submetidos aos Romanos, como ”celtas, «ibéricos», germânicos e outros.” (cf. PIEL 2) A partir do séc. IV, com a conversão do Império Romano ao Cristianismo, o latim vulgar sofreu a influência de diversos vocábulos gregos ligados a esta religião (como por exemplo ECCLESIA, port. Igreja). Por essa altura, desapareceu a terminologia ligada aos cultos pagãos. Quando o Império se desintegrou, no séc. V, os elementos itálico-latinos representavam a parte mais importante do léxico que compunha o latim falado na Península Ibérica.

    O galaico-português começou a divergir das restantes línguas românicas a partir do séc. V, quando o Império Romano se desintegrou e os Suevos e Visigodos invadiram a região. Destes dialectos germânicos restam poucos exemplos, mas são seguros os termos visigóticos como “aleive, bando, espeto, espora, espia, escanção, luva, roca, ufano, arrear, ou seja, vocábulos referentes essencialmente a actividades militares, conceitos jurídicos e objectos caseiros.” (PIEL 4)

    A partir do séc. VIII deu-se a invasão da Península Ibérica por parte dos muçulmanos. A influência que o superstrato árabe teve sobre o vocabulário latino da Península limitou-se, quase exclusivamente, a substantivos. Aos árabes devemos termos referentes à guerra e à administração (almirante, alferes, alfândega, aldeia, arrabalde, etc.), ligados à ciência e unidades de medida (algarismo, azimute, almude, arroba, etc.), ligados à agricultura, produtos agrícolas e industriais (azenha, nora, álcool, alcatrão, etc.), a plantas cultivadas e silvestres (arroz, algodão, laranja, alfarroba, alecrim, etc.), a animais (atum, alforreca, javali, etc.), outros ligados à arquitectura (alpendre, azulejo, aldeia, alvenaria, chafariz, etc.), ou ligados à música (adufe, rebeca, alaúde, etc.) e tantos outros mais.

    Após a reconquista cristã, com o estabelecimento das fronteiras do Reino de Portugal, o Português arcaico afastou-se do galego. Durante a época medieval, o Português continuou a absorver termos do latim, uma vez que este continuava a ser escrito e falado nos meios culturais, nos conventos, nas liturgias. A par destes termos latinos, também novos termos gregos foram sendo incorporados no Português, através da via erudita. Entre as línguas românicas, o Português será aquela que mais se expôs às línguas clássicas.

    A par dos latinismos, também a língua francesa tem influenciado o Português ao longo da história, desde o séc. XII até à época moderna. De muitos sectores fomos recebendo termos franceses que incorporámos no léxico português ao longo das épocas, como sejam: monge, rua, torneio, duque, batalha, ligeiro, cobarde, coragem, linhagem, mensagem, viagem, trovador, refrão, jogral, boné, chapéu, colete, blusa, croquete, filete, fricassé, etc.

    Com a época dos Descobrimentos, a partir do séc. XVI, inúmeros vocábulos ampliaram o léxico português, fruto do contacto com povos e línguas exóticas. Do Oriente chegaram-nos termos como, por exemplo, bengala, andor, pagode, chá ou chávena; de África, termos como batuque, ananás ou inhame; das Américas vocábulos como batata, cacau, mandioca, tapioca ou tabaco.

    Outros elementos nos têm chegado de vários países europeus, como da Itália e da Espanha. De Itália chegaram-nos essencialmente termos artísticos como: piano, ópera, aguarela, soneto, etc. A contribuição do Espanhol também é considerável, como por exemplo: cavalheiro, ganadaria, muleta, boina, mantilha, faina, etc. Das outras línguas europeias recebemos poucos vocábulos, embora se possa assinalar alguns oriundos do inglês, como bife, clube, lanche, etc.

    Bibliografia:

    – Piel, Joseph-Maria. “Origens e estruturação histórica do léxico português” (1976) in Estudos de Linguística Histórica Galego-Portuguesa. Lisboa, IN-CM, 1989. pp.9-16

  • Ciclo de formação da língua portuguesa

    Chamam-se romances as línguas que tiveram por base o latim vulgar. O latim vulgar era o latim falado no Império Romano, diferente do latim escrito. No primeiro século da nossa era, o latim vulgar era um sistema linguístico unitário em que todos os falantes tinham consciência de utilizar a mesma língua. Ao longo dos séculos seguintes, esta unidade foi desaparecendo. O latim vulgar foi perdendo a sua uniformidade linguística, até deixar de ser um sistema unitário e dividir-se em línguas autónomas, os romances. As invasões bárbaras e a quebra do sistema educativo romano no século V marcam o fim do latim vulgar.

    “O latim vulgar evoluiu no tempo, sendo claramente diferente o que se falava no século I d.C. do falado no século V. No latim vulgar existiam variações regionais e, dentro destas, é preciso ter em conta a época em que se produziam.” (CASTRO 88-89)

    A evolução do latim está relacionada com os dados históricos, geográficos, culturais, sociais e económicos. O latim vulgar diversificou-se ao longo dos tempos, mas também era diferente consoante o grupo social que o utilizava, de acordo com o seu grau de cultura ou a proveniência regional dos falantes. O latim que romanizou as províncias do império não foi o latim das cidades. Os colonos partiram das áreas rurais de Itália e falavam um latim menos culto. Por outro lado, existiam diferenças regionais: o latim que era falado na Lusitânia era diferente daquele que se falava na Germânia ou no Norte de África. Quando terminou a força unificadora de Roma, as diferenças linguísticas das regiões evoluíram de forma distinta durante os primeiros séculos da Idade Média. Algumas destas unidades do latim vieram a constituir-se como línguas nacionais.

    Os romanos estabeleceram duas grandes regiões na Península Ibérica: a Hispânia Ulterior (Sul e Oeste) e a Hispânia Citerior (Norte e Leste). A Ulterior veio a ser ocupada por duas províncias, a Lusitânia e a Bética, ficando a Citerior ocupada pela província Terraconense. Na Bética, isolada e culta, falava-se um latim mais conservador, mais purista, enquanto na Terraconense, a língua seria mais descuidada e propensa a incorporar neologismos, estrangeirismos, etc.


    O grupo de substractos pré-indo-europeu, penetrou na Península quer pelo norte, através dos Pirinéus, quer pelo sul, através do Mediterrâneo. Consistiu em substractos Proto-basco, Ibérico, Tartéssico e Fenício. Quanto aos substractos indo-europeus, aqueles que exerceram maior influência foram os Celtas. Por outro lado, a Península sofreu a interferência de superstratos por parte dos Suevos e dos Visigodos que se implantaram em território Ibérico a partir do século V. Mas foi muito reduzido o contributo que os romances peninsulares receberam destas línguas. Quando os árabes chegaram à Península Ibérica, esta estava “dividida em dois romances, um setentrional e um meridional, ainda que no plano político fosse um estado único (visigodo).”
    (CASTRO 163)


    No séc. VIII os muçulmanos ocupavam todo o Centro e Sul da Península, a que chamaram Al-Andaluz. Nesta região coexistiam de forma pacífica cinco grupos sociais: os baladiyym (árabes), os mouros (berberes), os muwalladim (convertidos ao islamismo), os judeus (comunidade judaica) e os moçárabes (cristãos submetidos). Durante o período de ocupação, o árabe conviveu com um estrato linguístico de origem latina: o romance moçárabe. O moçárabe era uma continuação do romance visigótico, um descendente directo do latim. Ele era mais conservador que os romances do norte da Península.


    Os moçárabes seriam a população cristã que vivia sob domínio árabe, mas que preservaram a sua identidade cultural, ou seja, mantiveram os seus costumes e tradições cristãs. O moçárabe, ou romance moçarábico, era a língua falada pelos habitantes na região ocupada pelos árabes. A sua língua convivia pacificamente com a língua da cultura, o árabe. O moçárabe era essencialmente uma língua doméstica, falada em ambiente familiar, enquanto o árabe lhe fornecia novo léxico. Na realidade, a influência do árabe materializou-se sobretudo num contributo lexical. O moçárabe foi enriquecido com imensos termos árabes, como por exemplo referentes à guerra e administração (almirante, alferes, alfândega, etc.), ligados à ciência (algarismo, azimute, etc.), ligados à agricultura (azenha, nora, etc.), outros ligados à arquitectura (alpendre, azulejo, aldeia, etc.), e tantos outros mais. É também o caso da toponímia portuguesa que apresenta uma feição árabe: como nos topónimos iniciados por AL- (Alfama, Almada, Algarve, etc.) ou daqueles iniciados por ODE- (Odemira, Odivelas, etc.). No entanto, embora tenham assimilado significativamente novas formas lexicais, as línguas românicas da península não foram modificadas profundamente pelo superstrato árabe. Posteriormente, o moçárabe foi submergido “pelas línguas dominantes nos seus antigos territórios.” (CASTRO 77)


    Durante a ocupação muçulmana, subsistiu no Norte da Península Ibérica
    um reduto cristão dividido em cinco reinos: Galiza e Portugal, Astúrias e Leão,
    Castela, Navarra e Aragão, e Catalunha. A estes reinos correspondiam cinco
    romances diferentes: o Galego-Português, o Astúrio-Leonês, o Castelhano, o
    Navarro-Aragonês, e o Catalão. Foi com origem neste reduto que se deu o
    movimento de reconquista da península, entre os séculos VIII e XV


    No início do século X, a Galécia Magna era a região do extremo noroeste da Península Ibérica. Esta região englobava o território que se estendia da Galiza até Aveiro, fazendo fronteira a Sul com o reino muçulmano e a Leste com as Astúrias. Incluía o Condado de Portucale, que se situava entre o rio Lima e o vale do Douro. No início do século XI, o território de Coimbra foi reunido ao de Portucale. Depois, o condado portucalense foi separado da Galiza e entregue a D. Henrique. O seu filho, D. Afonso Henriques, intitulou-se Rei com a assinatura do Tratado de Zamora em 1143. Lisboa e Santarém foram conquistadas em 1147. A independência do Reino de Portugal foi reconhecida pelo papa Alexandre III em 1179. Para Portugal, o fim da reconquista cristã deu-se com a tomada de Faro em 1249, altura em que ficaram delineadas as fronteiras de Portugal.


    O sistema linguístico denominado galego-português fora formado a partir do latim local a que se juntaram outros elementos, como sejam “as línguas faladas no NW antes da chegada dos romanos (…) e as línguas faladas por povos que, entre a queda do Império Romano (séc. V) e o aparecimento dos estados cristãos (séc X), passaram ou se instalaram nesta região da Península.” (CASTRO 67) Após a invasão muçulmana, o romance galego-português acompanhou o movimento descendente da reconquista, até ocupar todo o território do Reino de Portugal. À medida que as novas fronteiras se foram sucessivamente implantando a sul, os colonizadores vindos do norte repovoaram os novos territórios conquistados, impondo o seu dialecto.


    Durante a formação do Reino de Portugal e anos subsequentes, os documentos da corte foram redigidos num latim simplificado, próximo do latim falado. É o caso dos documentos do Condado Portucalense e do Reino de Afonso Henriques. Em meados do século XIII, surgiram os primeiros documentos escritos em português antigo, como sejam o Testamento de D. Afonso II (em 1214), ou a Notícia de Torto (datado de 1214-16), entre outros. Mas foi a partir de 1279 que a corte de D. Dinis passou a utilizar de forma sistemática o português como língua dos documentos oficiais. O surgimento destes textos escritos assinala o início do português antigo, com o seu término a ser marcado pelo afastamento do galego, por volta dos finais do século XIV ou início do século XV.


    Assim, durante o período compreendido entre os séculos IX e XV, denominado «ciclo de formação da língua», observou-se que o galego-português acompanhou a reconquista cristã, de norte para sul. Este romance estabeleceu-se em todo o território nacional até ao século XII, quando da formação do reino de Portugal. Entre os séculos XII e XIII, o português antigo começou a surgir na forma escrita, para finalmente se afastar do galego a partir do final do séc. XIV ou início do século XV. Deste modo, deu-se por completo o ciclo da formação da língua portuguesa.

    Bibliografia:

    • Castro, Ivo. Curso de História da Língua Portuguesa. Lisboa: Universidade
      Aberta, 1991
  • Breve introdução à ética

    Ética é o ramo da filosofia que reflecte sobre a natureza do bem e do mal, sobre os valores que distinguem uma atitude correcta de outra errada, sobre qual a forma moralmente adequada de agir. Sabemos que os seres humanos agem motivados por razões pessoais, tendo em vista os seus próprios fins. Mas podemos considerar a felicidade como aquele bem último que todos os seres humanos almejam alcançar. Reconhecendo que o seu significado varia de pessoa para pessoa, cabe aos filósofos determinar a natureza dessa felicidade.

    Embora rejeitando certas concepções de felicidade (vidas dedicadas à obtenção de riqueza, honras ou prazer físico), Aristóteles afirma que “a felicidade é o mais extremo dos bens que a acção humana procura obter.” (Aristóteles 1095) Para o Estagirita, felicidade é ter uma vida que manifeste aquelas características que nos distinguem como seres humanos; levar um género de vida que, submetendo as paixões à razão, exprima a nossa própria essência. Neste sentido, o nosso impulso para a felicidade deve ser conduzido por uma conduta virtuosa. Para Aristóteles, uma vida feliz será uma vida excelente, virtuosamente vivida.

    Para Immanuel Kant, a felicidade e o prazer referem-se aos sentidos e não têm valor moral. Na sua perspectiva, as acções humanas devem ser orientadas por um conteúdo moral, praticadas por dever. “Uma acção practicada por dever tem o seu valor moral, não no propósito que com ela se quer atingir, mas na máxima que a determina […]” (Kant 30). Numa máxima, o conteúdo moral exige que as acções sejam practicadas por dever. O indivíduo não deve ser motivado por inclinação imediata ou interesse pessoal, mas agir por respeito à lei moral. Por isso, Kant traça o imperativo categórico, um imperativo único do qual podem derivar todos os imperativos do dever: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal.” (Kant 59)

            John Mill, ao contrário de Kant, sustenta que não só a felicidade tem um valor moral, como é o objectivo último para o qual se dirigem todas as acções humanas. Ele entende esta felicidade como “o prazer, e a ausência de dor,[…] as únicas coisas desejáveis como fins” (Mill 51). No entanto, não é a quantidade de prazer, mas a sua qualidade, que é relevante e decisiva. Mill valoriza os prazeres superiores (do intelecto, da imaginação, dos sentimentos morais) em detrimento dos prazeres inferiores (ligados às necessidades físicas, como comer, beber, sexo). Insiste, ainda, que se deve considerar o bem-estar de todos e não apenas o de uma única pessoa. Moralmente, as acções serão tanto mais correctas quanto permitam a maior felicidade para o maior número de pessoas.

    Temos, assim, três diferentes perspectivas éticas: i) a visão de Aristóteles, uma ética de virtudes, baseada naquilo que uma pessoa humana deve ser; ii) a ética Kantiana, baseada em deveres morais, em regras que devemos obedecer; iii) e o utilitarismo de Mill, uma ética baseada em resultados, que pretende «maximizar a felicidade para a maioria das pessoas».

    BIBLIOGRAFIA:

    ·        Aristóteles. Ética a Nicómaco. Trad. António Castro Caeiro. Lisboa: Quetzal, 2004.

    ·       Kant, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.

    ·  Mill, John Stuart. Utilitarismo. Revisão científica, introdução e notas de Pedro Madeira. Lisboa: Gradiva, 2005.

  • A loucura por Apolo como base da sabedoria Grega

     

    As origens da cultura grega arcaica são misteriosas e obscuras, sendo na religião grega que encontramos os primeiros indícios do conhecimento ocidental. Antes dos Poemas Homéricos, numa época de tradição oral anterior ao século VIII a.C., os mitos organizavam a realidade. Estudos revelam que existiram templos consagrados aos deuses por todo o território helénico. De todos estes templos destacava-se o de Delfos, dedicado a Apolo, onde este deus comunicava com o ser humano através das Pítias. Para os gregos antigos, que exaltavam a adivinhação, um sábio era quem manifestava o oculto. O conhecimento das causas do mundo, dos mistérios e do futuro, pertencia à sabedoria. E era em Delfos que Apolo comunicava os mistérios e o futuro aos homens, através do oráculo e da sacerdotisa. A sua palavra divina exprimia um conhecimento: da possessão delirante da Síbila resultavam preceitos como «nada em excesso» ou «conhece-te a ti mesmo». Apolo simbolizava o conhecimento e o seu culto era uma celebração da sabedoria.

    Apolo era o deus do Sol e da luz, das doenças e da cura, da arte e da beleza, da razão e do conhecimento. Giorgio Colli, em O Nascimento da Filosofia (2010), apresenta-nos Apolo como um deus violento e feroz, «aquele que fere de longe». Este deus tinha uma natureza dupla e manifestava-se de modo ambíguo, alternando acção hostil com acção benigna. Os seus símbolos eram a lira (designando a acção benigna, as obras da beleza), e o arco (designando a acção hostil, as obras da morte). Esta duplicidade testemunha uma fractura entre o mundo humano e o mundo divino, em que a palavra era o intermediário, o ponto em que a misteriosa esfera divina entrava em comunicação com o mundo dos homens. Como coloca Colli, “o arco e as flechas do deus viram-se contra o mundo humano mediante o tecido das palavras e dos pensamentos.” (p. 30)

    Em Fedro, Platão faz Sócrates discursar sobre a mania, sobre a loucura, contrapondo esta à moderação, exaltando a primeira como superior e divina. Para além disso, Platão distingue o «adivinho» do «profeta», sendo que o primeiro seria o homem mântico, possesso e delirante, enquanto ao segundo caberia reflectir sobre os enigmas e dar um sentido à visão do primeiro. Platão testemunha, ainda, a natureza divina e decisiva da mania como fundamento do culto délfico. Este culto tinha uma base xamânica, de origem asiática e nórdica, capaz de realizar curas milagrosas, de conhecer o futuro e profetizar. O seu carácter místico manifestava-se em Delfos pelas palavras delirantes da sacerdotisa, que eram as palavras de Apolo, a sua resposta oracular.

    A loucura profética era inspirada por Apolo, e, por isso, Colli considera que este “não é o deus da medida, da harmonia, mas da possessão, da loucura.” (p. 14) Como existia um nexo entre a loucura e a palavra oracular, uma relação entre mania e Apolo, conseguimos acompanhar Colli quando considera que “a loucura é a matriz da sabedoria”. (p. 15) Uma vez que Apolo se manifestava aos homens através da mania, podemos aceitar a loucura como intrínseca à sabedoria grega arcaica, “desde o seu primeiro aparecimento no fenómeno da adivinhação” (p. 27).

    Estabelecendo-se que a origem distante e obscura da sabedoria grega procede da exaltação apolínea, sublinha-se o papel fundamental que o deus Apolo nela assume. Nos alvores do conhecimento ocidental, na época do mito e da religião grega, quando reinava a palavra oral, só os deuses eram verdadeiramente sábios. Apenas eles conheciam as causas primeiras, o futuro incerto e os mistérios do mundo. E, de entre as divindades gregas, destacou-se Apolo, que, em Delfos, transmitia este conhecimento através dos enigmas, pronunciados nas visões místicas dos adivinhos e das sacerdotisas. No início, a palavra divina de Apolo era o conhecimento.

    Bibliografia:

    – COLLI, Giorgio. O Nascimento da Filosofia. Trad. Artur Mourão. LISBOA: Edições 70, 2010