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reflexões, ficção e outras narrativas

No princípio era o Verbo

¹ No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
² Ele estava no princípio com Deus.
³ Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.

João 1:1-3

posição:

[…] Embora Portugal seja um estado laico e se apresente culturalmente distinto daquele Portugal em que nasci (25 de Abril – revolução dos cravos), considero que numa camada basilar da nossa sociedade ainda operam as “cosmovisões” que estes textos transportaram (e que ajudaram a construir) ao longo da nossa história. 

Por outras palavras, embora a sociedade portuguesa não se apresente hoje como católica, assenta a sua identidade no confronto com as ideias expressas na bíblia. Falo em termos de moral, de ética, de forma de pensar, etc. Por exemplo, quer me parecer que a base legal e moral, com a qual somos organizados e/ou julgados, incorpora em si os discursos de séculos de convívio com a realidade católica. E subsequentes contaminações nas relações da nossa sociedade. 

Esta é, para mim, a importância genérica dos textos bíblicos, tal como eu os entendo. Não só em termos Ocidentais, mas muito particularmente em Portugal, eles alicerçaram a nossa identidade, as nossas narrativas, e estas, actualmente, ainda mantêm vestígios dessa influência. 

ecocrítica:

Certa ‘manifestação divina’ (certo verbo) permitiu a dada pequena “tribo” sobreviver, no sentido que lhe forneceu o suporte mental para interpretar e interagir com o mundo. Tal expressão passou por gerações, oralmente e posteriormente por escrito, enquanto aglutinava povos, depois nações, que a interpretaram, assimilaram e utilizaram. Esta narração deu-lhes a capacidade de operar que resultou na cultura Ocidental do mundo actual […]

Em que consiste esta manifestação, este verbo, tal como nos chega hoje? 

Na reflexão que proponho, o primeiro capítulo do primeiro livro da Bíblia arquitecta um ecossistema. Ele começa e termina com aquilo que mais valioso existe para a nossa espécie. No início a água, constituinte e necessária; no final a alimentação (vegetariana). No centro da acção – recusando o isolamento e propondo a alteridade – surge a dinâmica sexual do ser humano como imperativo biológico e pacto de continuidade. O sol e a lua regem o tempo em ciclos e energizam a biosfera, que é partilhada pelos restantes animais. É nesta matriz essencial que se organiza a totalidade do ecossistema com os seus habitantes, numa afirmação de biodiversidade e interdependência de todas as partes. 

Sou da opinião que é este o ‘verbo’ que, transmitido nos seus próprios moldes, se continua a concretizar, estruturando e desenhando os nossos próprios dias.