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reflexões, ficção e outras narrativas

Autor: Paulo Lopes

  • Arquitectura Existencial da Leitura, segundo Bloom

    O Cânone como Dispositivo Estético e Existencial.

    O cânone ocidental de Harold Bloom (1930 – 2019) consiste no conjunto de obras literárias seleccionadas estritamente com base no seu valor estético intrínseco e na sua originalidade, transcendendo quaisquer critérios ideológicos ou políticos. Este cânone opera através de uma luta agonística de influência entre autores (um combate espiritual, estético e intelectual entre pares), na qual a força artística e a mestria da linguagem se afirmam perante a sombra dos precursores. Tem William Shakespeare como seu centro soberano porque, neste autor, a representação da mente humana é tão profunda que antecipa, contém e explica todas as teorias modernas que o tentam analisar. A finalidade última do conjunto canónico ocidental consiste em dar resposta à escassez do tempo e à certeza da nossa mortalidade, actuando como o instrumento autêntico da Arte da Memória que enriquece a vida interior, ajuda o leitor a pensar por si mesmo e lhe concede os meios para suportar com dignidade a solidão perante o triunfo do tempo e a morte.

    Pressupostos e Critérios da Sabedoria

    A sabedoria que o crítico literário Harold Bloom encontrava nos livros converge de três critérios que ele julgava fundamentais: o fulgor estético, a capacidade cognitiva (o rigor de percepção) e a força intelectual (o vigor da reflexão). Para ele, a sabedoria emanava exclusivamente de obras cuja densidade de linguagem e poder de reflexão resistem ao desgaste do tempo e alimentam a inteligência do leitor.

    Segundo este teórico norte-americano, a sabedoria não deriva de uma especulação teórica abstracta, mas de uma urgência somática e existencial que é provocada pelo envelhecimento, pela doença e pela perda irreparável dos seus próximos. A sageza pressupõe a aceitação lúcida de que a morte é a condição incontornável da existência humana, e a literatura sapiencial ergue-se como o espaço onde o indivíduo aprende a reconhecer o triunfo do tempo e a limitação do seu próprio intervalo de vida.

    Esta sabedoria não traz conforto sentimental. É, antes, uma «Perfeição» ambivalente que tanto pode absorver como destruir o leitor, dependendo da densidade interior com que este a aborda. Trata-se de uma sabedoria austera e exigente, suspensa entre a ironia e a tragédia, onde o temor e a consciência funcionam como o início do verdadeiro discernimento.

    Como Bloom sublinhava, a aquisição desta sabedoria é uma experiência estritamente individual e solitária, incapaz de oferecer garantias de salvação cívica ou de acalmar crises colectivas imediatas. Ele esclarecia que a literatura de sabedoria ensina o indivíduo, no recolhimento da sua reflexão, a reconhecer e aceitar os limites naturais da condição humana, preparando o espírito para o silêncio e para a aniquilação inevitável do eu.

    Contudo, esta sabedoria exige um equilíbrio dinâmico entre a afirmação da individualidade e a responsabilidade moral perante os outros, recusando tanto o egoísmo estéril como a resignação passiva. Ela consolida-se no dever de agir no presente e de perseverar no trabalho de interpretação e construção da vida, ciente de que, embora não seja exigido ao homem concluir a obra, também não lhe é dado o direito de abandonar o seu empenho.

  • Primeiros anos de Hall no CCCS

    Os primeiros anos de Stuart Hall no Center for Contemporary Cultural Studies, em Birmingham.

    Na minha opinião 1968 será o ano em que Stuart Hall assume a direcção do CCCS e 1973 o ano em que apresenta o modelo de como é produzida e recebida a mensagem transmitida pelos media (codificação/descodificação). Os media asseguram a hegemonia da elite e a sua mensagem pode ser recebida por aceitação, negociação ou oposição pelo “público” em geral. 

    Nota – correcções de IA:

    1. A data em que Stuart Hall assume a direção (1968 vs. 1969/1979)

    • O erro: Stuart Hall não assumiu a direção definitiva em 1968.
    • A correção: Em 1968, Richard Hoggart (o fundador do CCCS) foi nomeado para a UNESCO, e Stuart Hall assumiu o papel de diretor interino (Acting Director). Ele tornou-se oficialmente o diretor efetivo apenas em 1969, cargo que ocupou até 1979 (quando saiu para a Open University) .

    2. A data do modelo de Codificação/Descodificação (1973)

    • O erro: O ano de 1973 está parcialmente correto para o ensaio original, mas a versão consagrada e amplamente citada do modelo é posterior.
    • A correção: Stuart Hall apresentou o texto original (“Encoding and Decoding in the Television Discourse”) em 1973 como um paper de trabalho para o CCCS . No entanto, a versão definitiva, revista e publicada como capítulo de livro — que se tornou a referência mundial que usamos hoje — foi lançada em 1980 no livro Culture, Media, Language .
  • Nomear a realidade

    Quem nomeia a realidade domina o significado da sua experiência.

  • Não estás aqui para pensar

    “Não foste contratado para pensar mas para executar. Para pensar estou aqui eu. ”

    (Perante a aplicação constante da divisão do trabalho proposta por Ford) o pensamento tornou-se o supremo contrabando.

  • Catecismo do carrasco

    depois, o espetáculo grotesco da opressão a ser interiorizada: o cinismo burguês da direção contamina as chefias e desce até aos colegas, até que o refrão ecoa pelos corredores da instituição: «Sou dispensável. Todos somos dispensáveis.» Que puta de cartilha! É o grau supremo da alienação: o trabalhador a entoar hinos à sua própria extinção económica e existencial, repetindo o catecismo do carrasco como se fosse uma evidência natural.

  • Corpos Dispersos na Noite

    AKERMAN, Chantal — Toute une nuit. Bruxelas: Paradise Films / Avoriaz Frères, 1982 (89 min.).

    No asfalto, sob a luz difusa da noite, dezenas de corpos vagueiam pela penumbra urbana em colisão perpétua. Por vezes abraçam-se com urgência, outras abandonam-se sem esperar resgate. Alguns balbuciam palavras soltas contra a imensidão do silêncio. Há velhos e novos, altos e baixos, homens e mulheres num fluxo contínuo de encontros e desencontros — um bailado de insónias e desassossego.

    É a Europa a respirar as cinzas de 68, quando a utopia embateu contra a muralha do real. Nesta noite, os corpos dançam a sua própria ruína.

  • Escrever para curar

    “Escrever para curar. Não para curar a dor, mas para curar-se da ilusão do Eu.”

    — Chantal Maillard